Tela de Willy Zumblick retrata proclamação da República Catarinense em 1839. Foto: Ruy Machado

A fundação de Laguna inspira muitas discussões sobre quando teria ocorrido, qual ano e até quem teria sido o criado da póvoa lagunense. Há um consenso da maior parte dos historiadores de que a Vila de Laguna teria sido fundada no ano de 1676, com base em documentos escritos por Francisco Peixoto, filho do bandeirante Domingos de Brito Peixoto, que citou por duas oportunidades este ano.

Valmir Guedes Junior, jornalista e escritor com diversas obras sobre a história da terra natal, conta que a oficialização dessa data ocorreu na metade da década de 1970, quando o município se preparava para comemorar seu tricentenário (1976). Na época, o prefeito Francisco de Assis Soares (1973-1976, Arena), sancionou uma lei aprovada pela Câmara que fixava o aniversário de Laguna em 29 de julho.

“Alguns historiadores e autores defendiam o ano de 1676 como da fundação de Laguna por Domingos de Brito Peixoto e seu filho Francisco. Outros historiadores até defendiam o ano de 1684”, lembra Guedes. Um grupo de estudiosos, formado por nomes como Ruben Ulysséa, Oswaldo Rodrigues Cabral, Salum Nacif, Nail Ulysséa, se reuniu para tentar chegar a um consenso sobre a fundação da cidade.

Petições assinadas por Francisco de Brito Peixoto e enviadas ao rei de Portugal e citadas por autores como Carvalho Franco e Moacir Domingues, onde o filho do fundador menciona o ano de 1676 foram usadas como base para o fim da dúvida sobre a criação da póvoa. “Esses dois documentos seriam a certidão de nascimento de Laguna”, avalia Guedes, que compara o processo de definição do ano de fundação, às provas usadas na ação judicial de registro tardio de Anita Garibaldi que a confirmou como cidadã lagunense.

Por outro lado, há outra corrente. O advogado e historiador Adílcio Cadorin defende que a cidade tem documentos mais antigos a 1676 que registram a existência da povoação de Laguna e que a data de fundação pode ser revista.

“Queremos agregar novas datas à história de Laguna. Existem registros fidedignos de que a história de Laguna se iniciou muito antes de 1676. Laguna muito antes de ser povoada por Domingos de Brito Peixoto já havia sido descoberta, pois possuía denominação que constava em documentos oficiais antiquíssimos e em algumas cartas que guiavam navegadores desde 1501”, detalha.

13 de junho, 2 de outubro ou 29 de julho

Ainda na década de 1970, a cidade também precisava definir a data de seu aniversário. A primeira teoria apontada seria seguir a antiga tradição portuguesa que dedicava à fundação das cidades ao santo católico do dia. Com o Rio de Janeiro foi assim, que tem como padroeiro São Sebastião, celebrado em 20 de janeiro.

Nesse contexto, a defesa inicial era pela data de 13 de junho, data consagrada a Santo Antônio, padroeiro do município. Porém, como defendia Ruben Ulysséa, havia possibilidade do 2 de outubro, consagrado ao dia dos Anjos, e isso seria a justificativa do complemento ao nome do protetor de Laguna. “Entre 13 de junho, que já é feriado, e 2 de outubro, optou-se por julho”, resume Guedes.

A ideia do mês era também relembrar a epopeia da República Catarinense, fundada em 1839, no dia 29 de julho e que teve Laguna como sede, embora tenha sido chamada de Cidade Juliana. “Foi escolhido aleatoriamente? Foi, mas através de lei, pois não se tinha o dia e nem o mês e isso acontece com muitas cidades”, reconhece o escritor. Essa escolha gerou à criação da Semana Cultural (1981), que há dois anos passou a ser um evento sem data fixa no calendário municipal.

Cidade Juliana

Dos muitos apelidos de Laguna, um deles chama atenção: Cidade Juliana. A origem do termo vem de 1839, durante a República Catarinense. Cadorin resgata um fato curioso sobre a proclamação do Estado republicano. “Na ata de fundação é citado apenas Estado Catarinense Livre e Independente, não há o nome oficial da República”, explica.

O termo ‘cidade juliana’ vai aparecer apenas em um ofício posterior do governo republicano que elevava a vila à categoria de cidade com este nome e dava-lhe status de capital e isso foi acatado pelos historiadores.

Segundo Cadorin, em passagens registradas no seu livro ‘Laguna Terra Mater’, coube a Luigi Rosseti, pessoa letrada e responsável pela redação de O Povo, jornal oficial dos ideários republicanos, a missão de produzir todos os atos oficiais do Estado Catarinense. “Nos documentos que eram produzidos, contava ‘cidade juliana’ ou apenas ‘juliana’ e a data”, aponta o historiador. Isso deu brecha para que o nome da nação também ficasse como ‘República Juliana’.

Uma das hipóteses levantadas seria a homenagem para a filha de um rei italiano defensor da reunificação nacional. Mas para Guedes, a teoria é outra. “Os vários historiadores que eu li até hoje falam que o nome foi em virtude do mês. Desconheço outra afirmativa ou opção. Essa seria a explicação do por quê cidade juliana e isso caiu na concepção popular”, comenta.

Não é feriado municipal

Apesar de ser aniversário do município, o 29 de julho não é feriado municipal. Por lei, a cidade tem apenas três datas consideradas assim: 2 de fevereiro, consagrado à Nossa Senhora dos Navegantes; 11 de junho, dia de Corpus Christi e 13 de junho, dia de Santo Antônio.