Foto: Elvis Palma/Agora Laguna

Foi em um sábado que a pesca com auxílio dos botos, tradição cultural centenária de Laguna, recebeu um dos mais importantes reconhecimentos a nível estadual: o certificado de patrimônio imaterial catarinense. O documento foi entregue em 9 de junho de 2018 pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e marcou o fim de uma espera de sete anos pelo título.

Anteriormente, os botos já eram considerados patrimônio municipal por uma lei de 1997 e desde 1993 as lagoas da cidade são santuário ecológico para a espécie. A interação boto e pescador é única, o que a credencia para o recebimento do título.

Na cerimônia que marcou a entrega do certificado, o pescador que é coprotagonista desta prática cultural foi a principal estrela. Naquele sábado em 2018, a pesca não rendera como o esperado. “O vento não ajudou”, explicou João Bertolino. Mas os pescadores comemoram o recebimento do documento.

Para o pesquisador Wellington Linhares, o documento – embora simbólico, já que o que vale foi a inscrição da pesca no livro de registro dos Saberes Catarinenses – mostrou que o Estado reconheceu a relevância da manifestação cultural ímpar.

“[O governo] está também de forma multidisciplinar articulando através de sua Diretoria de Patrimônio e Gerência de Patrimônio Cultural Imaterial, uma carta para que outras autarquias, como a Marinha, venham a colaborar e agir contra as ameaças, tanto aos pescadores artesanais como também com a espécie marinha ‘boto-pescador'”, acrescenta.

O pesquisador alerta que apesar do reconhecimento e do registro, é preciso também criar ações para garantir a preservação. “Requer muita atenção e implementação de ações de salvaguarda, o que pela gestão municipal ainda é inexistente”, diz. A vontade de dinamizar esse processo de proteção levou Linhares a montar um site (pescacombotos.art.br), onde há uma exposição virtual permanente dedicada à espécie e também um espaço para que sejam feitas denúncias de ações prejudiciais à pesca.

“O site tenta minimamente atender algumas das demandas apontadas durante as mobilizações e orientações aos pescadores e comunidade”, resume Linhares. A ideia completa o que disse Bertolino, na época do recebimento do certificado: “A gente quer que nossos botos não morram. Espero que isso ajude. O que será de nós?”, disse o morador da comunidade de Ponta das Pedras.

A pesca com botos também caminha para receber uma chancela semelhante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em processo inciado em 2017 e que, em 2019, motivou audiências em Laguna com entidades envolvidas ou relacionadas com a pesca.

Foto: Taís Sutero/Gecom PML/Arquivo