Foto: Elvis Palma/Agora Laguna

Neste domingo, 15, completa exatamente um ano que Laguna não registra mortes de botos nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) por emalhe de rede de pesca. O último caso aconteceu em 2018, no Molhes da Barra, vitimando o boto Espinafre, encontrado sem vida após ter ficado preso em uma arte de pesca.

O dado é comemorado pela Polícia Militar Ambiental (PMA), que vê isso como um sucesso da tática da educação ambiental como forma de redução do uso da rede de emalhe. “Verificamos que nossas ações têm dado certo, principalmente nesse quesito da prevenção do acidente do boto emalhado. Vamos continuar com as fiscalizações para completar dois, três anos, e acabar de vez com essa que é a principal causa de morte de botos”, comenta o comandante da corporação em Laguna, capitão Fernando Magoga.

Contudo, mesmo com a ampliação das fiscalizações da PMA, a apreensão de redes de emalhe ainda é registrada. Na última sexta-feira, 13, a corporação recolheu três artes de pesca que estavam atravessadas de margem a margem no Rio Tubarão, com a notificação de dois pescadores. A ação foi realizada em conjunto com o Ibama, Instituto do Meio Ambiente (IMA) e Capitania dos Portos.

“Isso é um motivo de bastante satisfação e representa o esforço da fiscalização, das pessoas em denunciar a colocação de redes, embora ainda sejam colocadas. Mas, a princípio, não tivemos mais nenhum caso, o que é um motivo para ficarmos aliviado”, comemora o professor da Udesc, Pedro Castilho, coordenador do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS/Udesc).

Atualmente, o Canal da Barra é habitat de pelo menos 60 indivíduos, de acordo com dados levantados a partir de 2016. O PMP-BS tem registrado também que o número de nascimentos de botos no Complexo Lagunar têm crescido, depois de um nível de mortalidade alta.

“Não podemos baixar a guarda, precisamos estar todo tempo em cima, monitorando, olhando, e acompanhando. A verdade é que não tivemos mais mortes por emalhe, mas a gente teve registros de pelo menos dois botos com algum tipo de petrecho preso neles, seja um cabo ou uma anilha e estamos monitorando”, alerta Castilho. Segundo o especialista, essa situação quando observada requer uma ação cautelosa da equipe de monitoramento pela dificuldade de retirada dos itens.

Outras mortes ocorreram, mas não por emalhe

Pelo menos sete mortes de botos foram registradas em 2019, e até agora quatro indivíduos foram identificados como pertentes à população de Laguna. Em um dos casos, a causa da morte foi atropelamento por embarcação (era um boto filhote) e outro, por patologia que comprometeu órgãos internos – caso do boto “Perebento”, encontrado sem vida em Imbituba.

As outras duas mortes não tiveram a causa confirmada, em virtude dos avançados estados de decomposição em que foram encontradas. Em 2018, ao longo de todo o ano, morreram ao menos 15 animais da espécie T. truncatus.

O caso mais recente de morte de boto foi registrado justamente neste domingo, 15, na Praia do Mar Grosso. O animal estava em estado de decomposição e foi localizado na faixa de areia. Os pesquisadores trabalham para determinar o que pode ter provocado a morte do indivíduo.

Fiscalização da Ambiental recolheu três redes, na sexta-feira – Foto: PMA

Pesca artesanal pode se tornar patrimônio imaterial do país

Na última semana, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizou reuniões públicas com as comunidades pesqueiras e órgãos de Laguna para discutir a possibilidade de tornar patrimônio imaterial a pesca artesanal com auxílio dos botos. Os encontros foram realizados no Centro Histórico e região da ilha.

“O boto é um patrimônio natural e o saber fazer com o pescador artesanal se torna uma manifestação cultural, que, entendemos desde sempre, e agora com o aprofundamento das pesquisas, levamos ao comitê técnico para avaliar a pertinência e a relevância do saber fazer como patrimônio imaterial”, diz o pesquisador Welinton Linhares.

A ideia é que com a concessão do registro, a preservação da espécie possa ser cada vez mais fomentada. “Esse fenômeno da pesca colaborativa que acontece em Laguna é de grande valor patrimonial. […] Com essa vivacidade dos pescadores… é um fato que temos que lutar muito para preservar; tanto as condições para o boto estar aqui e querer fazer a pesca – já que e tem boto que não escolher fazer a pesca, o que é interessante pois não são amestrados, são livres e escolhem trabalhar com o pescador – e também as condições para o pescador manter a tradição”, avalia a consultora Letícia Viana, contratada pela Unesco para auxiliar o Iphan no processo. A pesca com auxílio já recebeu o mesmo título da Fundação Catarinense de Cultura (FCC).