‘Voz da Laguna’, João Batista Cruz comemora 80 anos em pleno Dia do Repórter

No sábado, a família reuniu cerca de cem convidados no clube União Operária para marcar a passagem dos 80 de Batista Cruz. Entre parentes, colegas de profissão e amigos, Cruz emocionou ao falar ao microfone. Embora tenha prometido que seria breve, falou por cerca de dez minutos, com direito à saudação "Gente amiga da Laguna", seu bordão característico.

A festa foi no sábado, 14, mas a comemoração mesmo é nesta segunda-feira, 16: João Batista Cruz chega aos 80 anos e não poderia ter nascido em um dia melhor. Este mesmo 16 de fevereiro assinala o Dia do Repórter.

O radialista nasceu em 16 de fevereiro de 1946, apenas um dia depois da solenidade de inauguração da Rádio Difusora de Laguna (a emissora também fez 80 anos), onde começou a carreira, foi diretor e até um ano e meio atrás ainda dava expediente diário ao microfone da pioneira do Sul, como fazia questão de lembrar todo programa.

No sábado, a família reuniu cerca de cem convidados no clube União Operária para marcar a passagem dos 80 de Batista Cruz. Entre parentes, colegas de profissão e amigos, Cruz emocionou ao falar ao microfone. Embora tenha prometido que seria breve, falou por cerca de dez minutos, com direito à saudação “Gente amiga da Laguna”, seu bordão característico.

“Toda a comunidade lagunense esperou conosco por esses dois anos [até o marco dos 80]. Selecionamos amigos, familiares, compadres, comadres, aniversariantes do mês, de modo que aqui estão os melhores amigos da minha vida”, disse Batista Cruz ao discursar na festa de sábado. “O Batista é um marido maravilhoso, que sempre trabalhou para o bem da família, uma pessoa da comunidade que atendia a todos com carinho”, definiu a esposa Carme Cruz.

Auditório lotado

“Fiz shows com atrações regionais para mais de mil pessoas”, lembra o radialista. As fotos que guarda com carinho não o deixam mentir. Na década de 60, Laguna tinha duas opções de diversão: ir ao cinema ou assistir apresentações dos programas de rádio nos auditórios. Televisão? Já eram captados alguns sinais, mas era mais chuvisco que imagem. Batista Cruz começou no rádio nesta época, considerada como a era de ouro do rádio lagunense.

A Difusora tinha um auditório na sede, que ficava na praça Vidal Ramos, mas por muitas vezes precisou fazer uso do Cine Mussi ou do antigo Central. Três foram os programas que são até hoje lembrados por quem tem um pouco mais de cabelo banco: Tijolinho gamado, Com Batista a brasa mora e o Musicruz. “Movimentava a cidade inteira, as comunidades do interior vinham todas de ônibus para o Centro”, afirma.

Homem de jornal

Além do rádio, Cruz também colaborou com a imprensa escrita. Em 1993, editou o jornal Farol de Notícias, que não foi além desse ano. “Queriam o jornal de graça”, brinca sobre o motivo que levou a apagar a luz do impresso. Em paralelo, escreveu sobre esportes para alguns veículos da cidade e até 2017, manteve uma coluna no Jornal de Laguna, espaço que chamou de ‘No mínimo, interessantes…’, um resumo daquilo que levava para o rádio.

Batista Cruz em seu ‘Musicruz show’ – Foto: Arquivo particular de Carlos A. Horn

Recordações que ficaram

Batista Cruz estava no ar quando, em janeiro de 2020, maquinários puseram abaixo o prédio do antigo Centro Social Urbano. Não quis assistir, mas admitiu posteriormente que ficou chateado e magoado. Os mais novos não conheceram o espaço quando era movimentado. Parte disso se deve a ele e a esposa, que lideraram o Centro Comunitário do Progresso – a Roseta, como sempre reforçou. O local também tinha o lado assistencial. “Tinha um programa do governo que administramos aqui, que era o ‘Olha o Peixe’, que vendia quilos de farinha de mandioca, de mandioca, feijão, arroz e peixe – quase sempre era sardinha – ao preço de R$ 1 o quilo”, recorda.

Bordões

Existem radialistas que marcam pelo estilo, mas também por seus bordões. Cruz pode se orgulhar, está nas duas categorias. Seja pelo jeito de comentar as notícias ou pelas formas de improvisar quando algo sai do combinado. “Estou chegando nele”, afirmava no microfone, quando soltava a gravação – na linha 5 –, mas o áudio não começava para reproduzir a fala do entrevistado. São dele frases como: “Oiiiiii, Laguna”, “Ampliando a notícia”, “Um município inteiro de notícia” e “Gente amiga da Laguna”. Isso quando não se empolga e larga um “bom dia”, com a fala estendida: “bom diaaaaaa”.

Ídolo para a família

Marcelo e Márcio Cruz são os herdeiros de Batista e Carme. Os dois filhos têm o pai como verdadeiro ídolo e exemplo. “Todas as homenagens a ele sempre serão justas”, defende Marcelo, que hoje é ferroviário em Tubarão, e por muitas vezes compareceu ao microfone da rádio como um auxiliar para o decano.

Foto: Elvis Palma/Agora Laguna

Futebol é paixão

Dois são os amores de Batista Cruz no futebol. Ambos rubro-negros. O primeiro é o Flamengo-RJ e o segundo é o Athletico Paranaense, resultado da época em que viveu em Curitiba, capital do Paraná. Só que pouca gente sabe – e, infelizmente, quase não há registros – que o radialista também teve seus dias de jogador de futebol. Ironicamente, vestiu a camisa do Barriga Verde – o Periquito era o rival do antigo Flamengo de Laguna, o Dragão. “Eram clubes que a Laguna tinha que ter preservado”, ressalta.

‘Eu sou da Brinca Quem Pode’

Enquanto muitos tentam esconder seus amores para não transparecer numa transmissão, Cruz nunca fez questão disso. Criado na Roseta, desde pequeno sempre foi Brinca Quem Pode, escola de samba da qual chegou a fazer parte da diretoria. Colegas da Difusora contam que, por muitas vezes, o radialista deixou o microfone e foi sambar. “É que sou da Brinca Quem Pode”, justifica. A agremiação – vejam a coincidência – faz 79 anos na terça-feira de Momo, 17.

Presidente de honra

O clube União Operária, no Centro Histórico, sempre foi símbolo de resistência. Na história da cidade, foi a primeira sociedade recreativa a abrir portar para a comunidade negra. Batista Cruz sempre se orgulhou desse fato e quando se referia ao clube, destaca com ênfase vibrante. Os demais sócios reconheceram isso lhe concedendo a presidência da entidade. Atualmente, a última diretoria formada passou a considera-lo como presidente de honra.

Urna aberta, notícia na certa

Em 1982, Batista Cruz já estava na direção da Difusora. A emissora havia sido adquirida pela família Freitas e pertencia à Rede de Comunicações Eldorado. O prestígio no microfone o influenciou a tomar uma decisão: se candidatar a vereador. Filiado ao antigo PDS, concorreu a uma das cadeiras e com 301 votos ficou suplente. Em 1988, aumentou a votação para 320, mas não chegou lá. A última tentativa foi em 1992, pelo PMDB, com 165 votos. Não chegou a assumir como vereador, mas sempre buscou cobrir os acontecimentos políticos da cidade. Vinda de presidente, governador, senador, deputado, posse de prefeito, vereador, secretário, renúncia, prisão, demissão, exoneração. Ele próprio teve a vivência do setor público: foi assessor de imprensa da prefeitura em vários governos.

Pelo rádio

“Minha primeira carteira foi assinada pelo major Pompílio Pereira Bento”, se orgulha ao contar a história do registro como funcionário na pioneira. Vale destacar que, apesar de ter sua imagem, ou melhor, sua voz, ligada à Rádio Difusora, Batista Cruz foi também funcionário da Rádio Garibaldi, onde apresentou os principais radiojornais da emissora e já atuou pelo microfone da Rádio Litoral.

*Com trechos de conteúdo publicado em setembro de 2024.

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