Inaugurado há 75 anos, Cine Mussi teve projeto de biógrafo de Anita e casa cheia no primeiro dia

Desde sua construção, o Mussi se destacou: seja pelas dimensões do prédio, pela cor rosa que o destaca ou pela estrutura com que foi apresentado ao público naquele dia 17 de dezembro de 1950.
Foto: Acervo particular Andréa Matos Pereira/Cedida

Há 75 anos, em um domingo com casa cheia e bilheteria suspensa para evitar superlotação, era inaugurado em Laguna um dos mais imponentes e simbólicos cineteatros do Sul catarinense. Desde sua construção, o Mussi se destacou: seja pelas dimensões do prédio, pela cor rosa que o destaca ou pela estrutura com que foi apresentado ao público naquele dia 17 de dezembro de 1950.

Idealizado pelos irmãos João, Carlos, Mussi e Antônio Dib Mussi, o prédio foi construído a partir de 1947 com projeto arquitetônico elaborado pelo suíço Wolfgang Ludwig Rau, já estabelecido em Laguna e que viria anos mais tarde se tornar o maior biógrafo de Anita Garibaldi, com o livro O perfil de uma heroína, lançado em 1975. Rau foi responsável pelas plantas de outros cineteatros pelo estado catarinense.

De São Paulo, os irmãos mandaram buscar projetores a carvão da marca Simplex e encomendaram as poltronas de madeira e as estofadas na Móveis Cimo, em Rio Negrinho, uma das mais conceituadas fábricas moveleiras do século passado. A noite da inauguração foi uma verdadeira festa, conforme se vê na descrição pormenorizada feita pelo jornal O Albor, na semana seguinte ao grande acontecimento.

“Grande foi o número de pessoas que afluiu para o interior do Cine-Teatro, ansiosas por conhecer e admirar a artística e luxuosa ornamentação interna do mesmo. Para maior deleite dos presentes os irmãos Mussi, num gesto de cavalheirismo e gentileza, determinaram se fizesse então uma demonstração dos maravilhosos efeitos luminosos da sala de projeção, demonstração que foi assistida com vivo interesse e sob aplausos da assistência que ocupava literalmente o recinto, instalada nas confortáveis poltronas da plateia, tendo sido na mesma ocasião exibidos na tela dois jornais esportivos através dos quais lhe foi dado apreciar a excelente qualidade do equipamento projetor e sonoro”, narrou o jornal.

A inauguração foi realizada com as bênçãos do padre Gregório Warmeling, vigário da paróquia de Santo Antônio dos Anjos, seguida por um discurso de Antônio Dib Mussi, na ocasião deputado estadual pelo antigo PSD, e pelo ato do prefeito Alberto Crippa (PSD, avô do atual prefeito de Laguna, Peterson Crippa), que descerrou a fita inaugurou existente à porta central do Cine Mussi, antecedendo a cena descrita pel’O Albor. O primeiro filme exibido foi A valsa do imperador, de 1948, que teve casa cheia; tamanha foi a procura que a bilheteria teve de ser suspensa.

O Cine Mussi, em foto de 2017. Foto: Elvis Palma/Agora Laguna

A decadência

Nos anos que se sucederam, o cinema dos irmãos Mussi foi sucesso de bilheteria, mas a trajetória de um cinema de rua, como este, pode ser comparada ao de um filme com um final fadado a ser trágico: tem seu auge e, quando tudo parece caminhar bem, o protagonista sofre um revés inesperado que o faz ficar sem forças para continuar a trilhar seu rumo.

A professora Renata Rogowski Pozzo, que organizou um projeto de extensão para resgatar a memória do cinema de rua em Laguna (os ‘achados’ estão registrados no livro O cinema na cidade, lançado em 2016), aponta uma tese para o desaparecimento das salas de exibição. “Desde os anos 1970, houve uma queda no número de salas de exibição instaladas em nosso país. Esta queda, além de estar relacionada à expansão da televisão, está também associada ao surgimento de novos padrões tecnológicos na exibição e de organização comercial, para os quais poucos empresários brasileiros estavam preparados para se adaptar. A partir dos anos 1990 ocorre a entrada de grandes empresas estrangeiras no segmento de exibição no Brasil (Cinemark e UCI, por exemplo)”, analisou a professora, em entrevista ao Agora Laguna, em 2020.

Como cinema, fechou oficialmente em 1992 e depois foi arrendado por uma igreja evangélica e por secretarias da prefeitura de Laguna. No começo dos anos 2000, a parte do teatro foi interditada pelo fato de a instalação elétrica ter ficado obsoleta. Apenas o setor comercial, que funciona nas laterais do prédio pôde continuar ativo.

Em 2009, o Ministério da Cultura, do governo federal, fez estudos e comprou o prédio que pertencia à família Mussi por R$ 812 mil para poder restaurar o prédio e devolvê-lo à sociedade lagunense. Ao todo, três anos de obras renovaram o prédio, que recebeu instalações de segurança, acessibilidade, equipamentos de projeção e sonorização, além de um anexo com camarins, sanitários e área de suporte técnico. O serviço foi promovido pelo Iphan no valor de R$ 7,23 milhões.

De 2014 até 2020, o prédio foi gerido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e desde 2021, a prefeitura de Laguna toca o espaço, com apresentações culturais, exibições esporádicas de filmes em domínio público e a cessão para eventos.

Projetores originais Simplex, do Cine Mussi, em 2014. Foto: Elvis Palma/Agora Laguna/Arquivo