Saul Ulysséa, 100 anos: conheça a história do lagunense que dá nome à escola de Cabeçuda

Desde a década de 1960, Saul empresta seu nome à unidade escolar instalada às margens da rodovia BR-101. A homenagem em uma escola faz jus a um homem que se dedicou não apenas ao comércio, mas também ao culto da literatura e da história da cidade que o viu nascer em 11 de outubro de 1868.
Arquivo

Ao traçar um perfil sobre o patrono da escola de Cabeçuda, o saudoso jornalista José Duarte Freitas, em crônica publicada no extinto Semanário de Notícias, escreveu que “Saul Ulysséa, ao transpor os umbrais da Eternidade, não deixou fortuna para ser herdada, mas um nome a ser honrado”.

Desde a década de 1960, Saul empresta seu nome à unidade escolar instalada às margens da rodovia BR-101. A homenagem em uma escola faz jus a um homem que se dedicou não apenas ao comércio, mas também ao culto da literatura e da história da cidade que o viu nascer em 11 de outubro de 1868.

Filho de Alexandrina e José Joaquim Pinto d’Ulysséa, que faleceu quando o filho contava apenas 14 anos de idade. Os estudos primários foram concluídos no Rio de Janeiro, para onde se mudou dez meses após o falecimento do pai.

Na então capital imperial, o menino morou com o irmão Ismael, que viria a ser o primeiro médico formado nascido em Laguna, e começou a trabalhar cedo em um comércio de joias do tio Antônio Dias de Pinho.

Como o Rio tinha uma efervescência cultural, o jovem buscou estudar humanidades e aprender desenho, piano, violino e até canto. Ele morou na capital por quase 20 anos.

Testemunha ocular

Quando estava no Rio, quis o destino que ele presenciasse os episódios de novembro de 1889, que culminaram na Proclamação da República. Naquela época, contava 21 anos. A narração do que viu repousa em amareladas páginas do seu livro Coisas velhas, editado pela primeira e única vez em 1946

“Confesso que fui admirador e simpatizante de D. Pedro 2º”, escreveu, para depois pontuar: “Fazíamos parte dos republicanos que desejavam a Proclamação”.

O evento de 15 de Novembro apenas confirmou um movimento que era crescente, mas que poderia ter sido adiado. “Se fossem postos em prática as reformas liberais desejadas ansiosamente e resolvida a questão militar, não teria proclamado a República senão depois da morte do imperador”.

Apesar de todo o clima, o lagunense revela ter sido surpreendido, quando viu a marcha de oficiais do Exército pela rua do Ouvidor. Estava decretado o fim do Império, iniciado em 1822 com D. Pedro 1º. “Assistimos ao desfile, surpresos do movimento e assim muitas pessoas por ignorarem o que se passava. Ouvimos alguns vivas à República que eram correspondido pelos oficiais”.

No mesmo dia foi empossado um governo provisório chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, tendo como vice o também marechal Floriano Peixoto.

Influente na sociedade

Já adulto e de volta à cidade que o viu nascer, Saul estabeleceu uma casa comercial no Centro de Laguna. Era especializada em importação, exportação e consignação. É aqui que ele inova com a implantação de máquinas de descascar arroz e moer café, as primeiras que se têm registro na região sul-catarinense.

Dividia a função de comerciante com a de procurador da República, cargo que exerceu de 1905 a 1930 e ainda chegou a fundar um serviço marítimo com seu nome, proprietário do Tamoyo, primeiro navio a vapor da praça comercial lagunense. Foi ainda provedor do hospital de caridade.

Em abril de 1923, foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Empresarial de Laguna, iniciada como Associação Comercial e Industrial (Acil).

Também aparece como fundador e um dos primeiros presidentes de uma companhia de seguros local, criada no começo dos anos 1920, e presidiu a Sociedade Recreativa Congresso Lagunense

Casou-se pela primeira vez em 1901, com Francisca de Sousa Lima, e teve os filhos Ruben Ulysséa, Sylvia Ulysséa Baião, Vera Ulysséa Nunes e Noema Ulysséa Remor.

Após ficar viúvo em 1912, contraiu matrimônio com Maria de Sousa Lima, que era prima da primeira esposa. Do casamento, nasceu o filho Murilo Ulysséa. Saul morreu a 16 de fevereiro de 1948, em Laguna.

Escritor e jornalista

Saul também teve atuação importante na imprensa sendo fundador do jornal O Commercio, em 1903, o primeiro de grande formato, junto do irmão Ismael. Foi ativo colaborador com escritos em folhas como O Albor.

Em 1934, publicou seu primeiro livro, as Novelas do Ulysses. Em 1943, editou Memória histórica e geográfica da Lagoa de Santo Antônio dos Anjos e A Laguna de 1880 e três anos depois veio Coisas velhas.

Deixou inédita uma obra sobre o episódio da Revolta da Armada, contando fatos que ocorreram em Laguna, nos idos de 1893, e ainda mais crônicas de Ulysses. Antes de morrer, ele projetava publicar um livro de memórias. As obras, há muito não reeditados, hoje são raros e fonte importante de pesquisa sobre Laguna.

Homenagens na cidade

Dono de uma mente criativa, Osmar Cook, o mesmo que escreveu e compôs a letra “Minha Laguna”, adotada como hino da cidade em 1973, era cronista da Rádio Difusora, quando fez uma última homenagem: “Por muito tempo ainda, Saul, tua presença ficará imponderável, vagando invisível nos quatro cantos de tua querida Laguna. Por muito tempo ainda, tua lembrança nos rodeará, Saul. Anos se sucederão e teu nome continuará indelével em nossa memória”.

Cook estava certo ao prever que, mesmo após falecer, Saul Ulysséa seguiria presente na cidade natal. Por volta dos anos 60, a escola de Cabeçuda já ostentava seu nome em homenagem. Já a prefeitura, lhe deu uma rua no Mar Grosso.


Esta matéria fez parte da edição impressa comemorativa aos cem anos da escola Saul Ulysséa, publicado no Jornal Agora Laguna.

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