Interação boto e pescador traz benefício para ambos, aponta pesquisa divulgada nos EUA

No documento, disponível apenas em inglês, a equipe analisa que a interação é uma chave para beneficiar tanto os botos quanto os pescadores, ambas classes predadoras, no sentido de que buscam uma presa em comum: o cardume de peixes.
Foto: Elvis Palma/Agora Laguna/Arquivo (2013)

A relação entre os pescadores e os botos de Laguna inspirou um estudo publicado há poucos dias por um grupo de pesquisa, que envolve professores universitários de três países, incluindo o Brasil. A pesquisa foi divulgada na centenária revista Proceedings of the National Academy of Sciences, que é o órgão oficial de divulgação da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (EUA). O artigo original está disponível neste link.

O estudo liderado por Mauricio Cantor, que faz parte do Instituto de Mamíferos Marinhos da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos (EUA), foi executado ao longo de 15 anos. Além dele, participaram os professores Fábio Daura-Jorge, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Damien Farine, da Universidade de Zurique (Suíça) e Universidade Nacional Australiana (Austrália). A linha de pesquisa se baseou na análise do comportamento animal e o relacionamento entre os botos e o ser humano.

No documento, disponível apenas em inglês, a equipe analisa que a interação é uma chave para beneficiar tanto os botos quanto os pescadores, ambas classes predadoras, no sentido de que buscam uma presa em comum: o cardume de peixes. E eles descrevem: quando os golfinhos se aproximam das redes de pesca de perto e sinalizam aos pescadores, eles mergulham por mais tempo e modificam sua ecolocalização ativa de forrageamento para corresponder ao tempo que leva para as redes afundarem e fecharem sobre as tainhas – mas apenas quando os pescadores respondem adequadamente aos seus sinais.

“Sabíamos que os pescadores estavam observando o comportamento dos golfinhos para determinar quando lançar suas redes, mas não sabíamos se os golfinhos estavam coordenando ativamente seu comportamento com os pescadores. Usando drones e imagens subaquáticas, pudemos observar os comportamentos de pescadores e golfinhos com detalhes sem precedentes e descobrimos que eles pegam mais peixes trabalhando em sincronia”, explica Cantor.

O estudo ainda aponta que tem havido declínio na disponibilidade de tainha e isso provoca falhas na interação, aumentando a exposição dos golfinhos à pesca acidental, além de ameaçar a reprodução do peixe. “É improvável que a prática continue se os golfinhos ou os pescadores não se beneficiarem mais dela”, sustenta Farine. “Se tomarmos medidas para documentar e conservar o conhecimento e a cultura da prática, podemos impactar indireta e positivamente também os aspectos biológicos”, indica Daura-Jorge, que detectou a existência de desinteresse na continuidade da prática centenária pelas gerações mais novas. “Não sabemos o que vai acontecer no futuro, mas nosso melhor palpite, usando nossos melhores dados e melhores modelos, é que, se as coisas continuarem como estão agora, chegará um momento em que a interação será deixar de ser do interesse de pelo menos um dos predadores – os golfinhos ou os pescadores”, vaticina o professor catarinense.

O estudo conclui medidas de conservação que devem ser tomadas: identificar a origem do declínio da tainha e tomar medidas para melhor manejar essa espécie, como reduzir o uso de redes ilegais por meio da aplicação da lei, além da adoção de medidas para trabalhar com pescadores artesanais atuais e futuros, enfatizando a importância cultural e econômica da prática de lançar redes.