Cidade se despede de Zé Mala, professor, carnavalesco, Papai Noel e figura carismática

José Alves Fernandes, 75 anos, não recusava desafio, muito menos cobrava por isso: “Tudo o que a Laguna me oferece, tô sempre participando”. Foi Papai Noel durante cerca de 40 anos e teve atuação memorável no Carnaval.
Montagem sobre fotos de arquivo pessoal e Elvis Palma/Agora Laguna

Durante 40 anos, o Natal de José Alves Fernandes foi sinônimo de realização de sonhos. Não dos seus, mas daqueles que têm na figura do Papai Noel a imaginação poética de um ser que doa de si para alegrar os outros. Mais conhecido como Zé Mala, o homem por trás da roupa vermelho-e-branca nos deixou nesta terça-feira de Carnaval, 21, aos 75 anos, enlutando a cidade e as gerações que lhe entregaram cartinhas ou lhe confidenciaram seus desejos natalinos.

“Sempre fui apaixonado pelo Natal”, contou em entrevista, em 2017, quando completava 39 anos no ‘cargo’ de Papai Noel dos lagunenses. “Sou louco pelo dezembro inteiro, acho um mês diferente. A brisa é mais fresca, o céu é mais bonito e as pessoas são mais belas. Depois que me ofereceram a dádiva de ser o Papai Noel, passei a vive-lo a vida inteira”

A missão lhe foi passada em 1978, contava, a partir de um convite pelo então bom velhinho, Valdemar Antunes. “Acho a figura do Papai Noel, muito bonita, muito solidária. Cada um deveria passar pelo menos uma hora para sentir a emoção”.

Carnavalesco, dramaturgo, professor, bom velhinho e figura carismática, Mala não recusava desafio, muito menos cobrava por isso: “Tudo o que a Laguna me oferece, sempre participando”.

Pedidos difíceis não estavam, infelizmente, ao alcance do Noel lagunense

Numa das entrevistas concedidas enquanto Papai Noel, Zé Mala, revelou os pedidos mais difíceis. Ao antigo Folha Lagunense, em dezembro de 2013, relembrou: “Uma menininha, ela tinha uns seis anos. A pequena veio me pedir chorando que fizesse o papai e a mamãe dela voltarem a se gostar. Estavam separados e aquilo a deixava muito triste”.

Já em 2017, à Rádio Difusora, trouxe à tona outro pedido de uma criança; igualmente, inacessível ao bom velhinho. “Até tirei um xerox e guardei comigo. Uma menina de oito anos falava que não queria presente, mas sim, a saúde da mamãe que estava com câncer. Isso me emocionou muito”.

Todas as cartinhas eram recebidas e repassadas para entidades que se comprometiam em tentar realizar aquele desejo. As que marcavam eram guardadas com carinho. Quando podia, Mala tirava do próprio bolso e dava um jeito de realizar aquele sonho. Todavia, sabia que nem sempre isso seria possível – e reconhecia: “Certos desejos, não estão ao meu alcance, infelizmente”.

Amigos destacam figura

A morte de Zé Mala encheu as redes sociais de mensagens de gratidão pela amizade e de reconhecimento pelo que ele representou nas gerações que o acompanharam a cada nova chegada do Papai Noel. “Teu legado de amor e caridade será para sempre lembrado, teu estilo próprio e irreverente nas decorações que sempre encheu olhos e almas, não será jamais visto, tua ousadia era só tua, teu estilo era só teu”, escreveu o dramaturgo Jairo Barcelos, em rede social.

No começo desse ano, outra faceta do professor de Língua Portuguesa e Inglesa foi destacada nos concursos da Pracinha. Os troféus entregues às bonecas, musas e drags, foram chamados de Arrasa Bicha, em homenagem ao bordão que ele consagrou na hora de anunciar os competidores. Até o ano de 2016, quando abriu mão do microfone, Fernandes foi o apresentador do concurso.

“Fonte de inspiração! Através dele que eu comecei a olhar os palcos com outros olhos. Energia incomparável”, reconheceu Kelly Amorim, a Babalu, atual comandante da festa que abre as folias carnavalescas locais. “Não deu tempo que fazer um show com ele nessa vida, mas tenho certeza que onde ele estiver, vai estar brilhando muito. Querido e amado por todos”, disse ao Portal.

O município de Laguna estuda decretar luto oficial de três dias pela morte do educador, que deixa uma lacuna na cultura. O Papai Noel dos lagunenses será velado, a partir das 16h, no Asilo Santa Isabel e seu sepultamento será na quarta, 22, às 9h30 no cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio, no Centro Histórico.