O Albor, mais histórico jornal de Laguna, faria 120 anos hoje

Na história da imprensa, o jornal do seo Bessa foi o mais duradouro da cidade de Laguna, desde 1864. Publicação circulou por longos 63 anos e registrou tudo o que acontecia no município.
Jornal O Albor, em 1933. Foto: Luís Claudio Abreu/Agora Laguna
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Páginas amareladas pelo tempo que ajudam a contar a história de outro tempo. Essa é a visão que se tem ao folhear um velho jornal. Quando vai para as bancas, a missão principal é informar. Mas acaba fazendo mais que isso: se torna um registro (quase) perpétuo da vida cotidiana. Por 3.053 edições, O Albor cumpriu esses objetivos. Nesta quarta-feira, 15, se ainda estivesse em circulação, completaria 120 anos. O semanário, que se orgulhou de ter sido “o mais antigo de Santa Catarina”, acompanhou a evolução do município.

Nas suas páginas, registrou a chegada do primeiro automóvel, da energia elétrica, do telefone, do rádio, do cinema. Descreveu partidas de futebol e as regatas náuticas. Cobrou o poder público. Teceu elogios. Divulgou nascimentos, mortes, casamentos, quem chegava de viagem e quem partia. Tudo virava nota – conceito que até hoje norteia o jornalismo.

Era domingo quando a primeira edição circulou, por ideia dos jovens Adalberto, Manoel Custódio e Manoel dos Passos Bessa. Foi distribuída de graça e quem não devolvesse o número virava assinante e tinha de pagar adiantado. O novo século inspirava o nome – albor é sinônimo de “aurora”. O número inicial tinha tamanho menor que uma folha A4. Trazia algumas notas e um editorial onde se comparava à uma formiga antenada.

“Quando Gutenberg tornou realidade o maior veículo de ideias e do pensamento, […] não podia imaginar que nas humildes plagas da Laguna, uma pequenina formiga acostelada em fulgente nome Albor, surgiria com antenas alçadas, carregando um grãozinho de areia para o imenso edifício da civilização”, diz trecho do que foi publicado em 1901 – a grafia dá uma noção da linguagem formal e rebuscada daquele tempo.

Há uma curiosidade sobre aquele número. Não se sabe como, mas a primeira edição foi impressa em um papel que trazia a bandeira do Brasil, colorida. Já era possível usar cores na impressão, mas a forma com que isso foi feito era algo revolucionário, ao menos para Laguna.

O tempo passou. A publicação aumentou de tamanho. Recebeu anunciantes. Ganhou espaço. No terceiro ano de existência, uma mudança. Adalberto vendeu ao primo Antônio o jornal. Dos fundadores, ele era o único que ainda permanecia à frente da publicação, que já naqueles anos convivia com problema de lucro: o que arrecadava ia quase tudo para a compra dos insumos gráficos.

O novo proprietário ficou à frente do jornal por 59 anos. Até seu último número, fazia esforços para mantê-lo na rua. Se aumentava o preço, ia à público explicar e devolvia o dinheiro de quem se sentisse prejudicado. Durante todo esse tempo, o semanário só não saiu às ruas por força da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E foi por causa de uma polêmica. Em um artigo, em 1918, uma expressão em alemão foi publicada. Um jornal concorrente o acusou de ser favorável à Alemanha (considerada inimiga à época). Censurado, ficou cinco meses sem ser publicado. Voltaria só em 1919 e seguiria adiante.

Nomes conhecidos da sociedade colaboraram com O Albor. Eles escreviam artigos colunas sobre assuntos que chamavam a atenção da cidade. Entre eles, nomes como: Angelo Novi, Ismael Ulysséa, Castro Faria, José Duarte Freitas, Júlio Marcondes de Oliveira, Dakir Newton Polidoro, Júlio Barreto, Ruben Ulysséa e Saul Ulysséa.

Fazer o jornal não era uma tarefa que se resumia só ao seo Bessa. Toda a família ajudava. Seja para distribuir, seja para escrever. Um dos últimos a entrar para esse grupo foi o neto Álvaro Silveira Júnior, o Tuta. Uma doença cardíaca o afastou do serviço público e assim entrou para o semanário. Escrevia sobre esportes, sua paixão, a qual não podia praticar.

Antônio Bessa, jovem, em sua mesa de trabalho na redação do jornal. Foto: Arquivo de família

Parte da história

Convivendo com equações matemáticas entre custo e lucro, O Albor foi seguindo ano após ano. Entrou em 1965, mas não o viu acabar. A edição do dia 9 de janeiro marcou o fim do jornal, que circulou normalmente. Trazia patrocínio. Estava com as colunas de sempre. Falava das notícias da cidade. Mas não houve continuidade. Foi o mais duradouro na história da imprensa da cidade.

A idade avançada do seo Bessa, então com 86 anos, e a saúde debilitada do neto, que faleceu poucos anos depois, são alguns fatores que explicam seu desaparecimento. Antônio sempre rezou para o padroeiro Santo Antônio pelo reestabelecimento de Tuta, para que ele reeditasse o semanário. O velho Bessa morreu sem conseguir esse objetivo e dizia que o jornal estava sem sair por “uma gripezinha”. “Na minha visão, não poderíamos ter deixado desaparecer, mas como a cidade é pequena, acabamos ficando sem O Albor. Era muito lido até na capital e levava as coisas da cidade adiante”, lamenta o radialista João Batista Cruz.

“Viu a história acontecer e, hoje, passou a fazer parte dela”, resumiu a jornalista Lúcia Maria Silveira, no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que resgatou a história do jornal, em 2000. Lúcia, que faleceu em 2012, era filha de Tuta. O TCC, feito em conjunto com Danielle Durieux, é hoje uma fonte primária para resgatar a trajetória de O Albor. E por outro lado, o jornal se torna uma fonte necessária para quem quer contar como era o cotidiano de Laguna naqueles tempos passados. Leia na íntegra, aqui.

Mais de duas mil edições foram preservadas e estão sob a guarda do Arquivo Público de Laguna. Os números foram limpos, restauraudos e devem voltar a ser disponibilizados ao público neste ano. “No caso do Albor, o valor histórico transforma os exemplares em verdadeiras relíquias”, reconheceu o jornalista Márcio Carneiro, em entrevista a Agora Laguna, ano passado. Também há edições guardadas na Biblioteca Nacional, no Rio, e Biblioteca Pública, em Florianópolis.

Os dados contidos nas edições do velho semanário embasam artigos acadêmicos, livros e matérias jornalísticas. Nossa equipe recorreu a ele para falar sobre o Cine Mussi e o antigo Barriga Verde. “São jornais que contam a notícia e a história, registram as coisas. Na coletânea histórica do Albor ficou o registro de um período imenso da nossa cidade”, avalia o odontólogo e escritor Márcio Rodrigues. Do jornal também restou sua sede, que ainda existe na rua Barão do Rio Branco. Hoje com outras ocupações comerciais, não preserva mais o nome do jornal em sua fachada, o que até o início do século ainda havia.

Antônio Bessa

Principal nome ligado ao Albor, Antônio Bessa nasceu em 9 de junho de 1877. Segundo a bisneta Lúcia Maria, por conta das péssimas condições financeiras da família, foi obrigado a começar a trabalhar ainda menino, com nove anos. “Iniciou como entregador de compras em um armazém de um concorrente de seu pai. Ganhava apenas uns trocados. Um dia, durante uma entrega na casa de um freguês muito rico, chamado Álvaro Pinto da Costa Carneiro, sensibilizou a esposa deste, Ninita, com sua magreza e aparente pobreza”, relatou no TCC. Costa Carneiro era português, foi prefeito da cidade por quatro vezes e inaugurou o primeiro mercado público.

Carneiro deu emprego ao jovem. Foi aprendiz de tipógrafo, aprendeu jornalismo na prática, virou dono da oficina gráfica – comprada de seu empregador – e em 1904, adquiriu O Albor. No jornal, fazia de tudo: redigia os artigos, gerenciava, cobrava e entregava. “A única coisa que dividia a atenção de Seu Bessa com o jornal era a política. Um verdadeiro vício. O primeiro contato foi através de Costa Carneiro, seu padrinho e protetor. Com ele, envolveu-se no Partido Republicano e chegou a ser seu presidente na cidade. E durante três períodos assumiu a Superintendência Municipal – cargo equivalente a prefeito”.

Se filiou à União Democrática Nacional, em 1945, e foi porta-voz do partido e maior líder na região. Torcia para o Bola Preta, e ficava mais triste quando o cordão carnavalesco perdia, do que quando era criticado. Não tocava instrumentos, mas era fanático pela União dos Artistas – os filhos Agenor e Manoel viraram flautistas na banda.

Morreu aos 94 anos. No dia do seu enterro, em 15 de junho de 1971, quando a União baixou os instrumentos, o ex-prefeito Paulo Carneiro pediu ao maestro: “Toquem mais porque ele merece. Hoje enterramos um rei”.

Sede de O Albor, na Barão do Rio Braanco. Foto: Arquivo