Laguna não planeja decreto para barrar quem escolhe vacina, mas não descarta possibilidade

Prefeitura entende que não há necessidade de decreto, por não haver muita procura por determinados fabricantes, como em outras cidades. Mesmo pensamento também compartilha a gestão de Pescaria Brava. Nas duas cidades, a meta é avançar a vacinação.
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Sommeliers são profissionais especialistas responsáveis por cuidar da carta de bebidas em estabelecimentos como restaurantes ou lojas especializadas, geralmente são associados ao comércio de vinhos. São eles que experimentam, testam e decidem se determinada bebida está apta a ser servida ou vendidas aos clientes e isso requer muito estudo e prática. Desde o começo do ano, o Brasil tem tido uma nova “classe de sommeliers“: os que escolhem vacinas e tem trazido alguns transtornos em várias cidades do país, num gesto que é condenado pelos gestores municipais de saúde por prejudicar o andamento do trabalho de imunização.

Alguns municípios adotaram medidas mais severas para coibir a prática. Criciúma, no Sul do estado, editou um decreto que dá cinco dias para os moradores da cidade receber a dose do imunizante e quem perder o prazo, tem que ter uma justificativa para poder ter a aplicação. Já os que não tiverem como justificar ou quiserem escolher o fabricante da vacina irão para o final da fila de imunização. “A pessoa chegou lá para tomar a vacina e não tomou por que queria de uma outra marca, ou de um outro laboratório, vai assinar um termo. E, se não assinar o termo, dois profissionais assinarão, e vai passar a ser o último da fila. Só quando for vacinado todos acima de 18 anos é que este engraçadinho, que quis escolher a vacina, será vacinado”, explica o prefeito Clésio Salvaro (PSDB). Em poucos dias, 66 pessoas foram para o final da fila.

Em Laguna, a medida não será necessária, segundo a secretária municipal de Saúde, Gabrielle Siqueira. “Até o momento, temos uma adesão muito boa em relação às vacinas que estão disponíveis na unidade. Já conversamos sobre isso, mas não é hora para ter uma lei. Mas, se isso [vir a acontecer] e começar a atrapalhar os trabalhos, não é uma medida que será descartada. Hoje, a vacinação ocorre de forma acelerada e tentamos fazer de tudo para continuar acelerando”, diz. Na cidade, mais de 23 mil pessoas já receberam a primeira dose ou dose única.

Situação semelhante vive Pescaria Brava. “Não estamos tendo muitos problemas referente a isso”, explica o secretário Matheus de Souza Vicente. Na mais jovem cidade da região, foram vacinados com primeira dose ou dose única. Por lá, qualquer medida mais severa é descartada no momento. O município já tem 5,1 mil moradores imunizados com primeira dose e 1,3 mil na segunda dose ou aplicação única.

Com a chegada de novas doses de vacina e a revisão de parâmetros dos grupos prioritários e etapas da campanha nacional de vacinação, Santa Catarina têm dado prioridade à imunização contra o novo coronavírus e tem a meta de ter aplicado a primeira dose em todas os moradores do estado com mais de 18 anos até agosto. Em paralelo, têm sido realizado o trabalho de vacinação nos grupos prioritários (comorbidades, profissionais da educação, idosos, etc) e por faixas etárias.

O reflexo desse avanço vacinal também é compartilhado pelas cidades. Laguna promove um novo Dia D no sábado, 17, para aplicação da segunda dose da vacina AstraZeneca para quem recebeu a primeira em abril. Já Pescaria Brava começa a imunizar quem tem 33 anos ou mais, a partir desta quarta-feira, 14.

Vacinação é urgente, diz médica

Nas redes sociais se criou o mantra de que vacina boa é a QTP, aquela que tiver no posto. Para a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), querer escolher o imunizante não faz sentido. “É muito urgente que a gente consiga vacinar a população adulta, obter uma cobertura vacinal alta não só na primeira dose, mas também na segunda. Todas as vacinas que a gente têm – Coronavac, AstraZeneca, Janssen e Pfizer – possuem dados de efetividade e isso vai além da eficácia, pois é a capacidade que elas demonstraram na vida real em redução de casos e, principalmente, de hospitalizações e mortes por Covid-19. O resultado para as quatro são muito semelhantes, inclusive para a Coronavac que todos faltam que têm eficácia baixa”, frisa a profissional, fazendo referência a estudos e dados levantados em outro países, e também no Brasil.

Ainda de acordo com a médica, muitas pessoas buscam escolher a vacina na intenção de segurança, isto é, preocupação com possíveis eventos adversos ou reações decorrentes da utilização do imunizante. “O risco de hospitalizar e morrer por Covid-19 [sem vacina] é muitíssimo maior do que você ter o efeito adverso”, adverte. As vacinas AstraZeneca e Janssen passam por estudos após alguns pacientes terem desenvolvidos síndromes semelhantes à trombose (no caso da primeira) e a de Guillain-Barré (na segunda).

“Deixar de se vacinar para aguardar a vacina desejada significa que essa pessoa corre o risco de morrer antes dessa vacina que deseja chegar e, no ponto de vista coletivo, é postergar ainda mais o resultado de cobertura vacinal da população com duas doses, é adiar o controle dos casos e da pandemia, bem como aumentar o risco de surgimento de novas variantes. A circulação alta do vírus no país é um cenário perfeito para que novas variantes surjam entre nós”, pontua a especialista.

Segundo o Ministério da Saúde, até a terça-feira, 13, um total de 117 milhões de doses (somando as registradas e as que aguardam a inclusão no sistema) tinham sido aplicadas no Brasil, sendo: 85,5 milhões de pessoas com a primeira dose e 31,4 milhões com a segunda dose ou dose única.