Os desafios de levar a informação em meio à pandemia

Com as normas de distanciamento social, as redações foram fechadas e migradas para o home-office, os contatos com os personagens da informação passaram a ser feitos de forma remota e o uso da tecnologia foi ampliado.
Foto: Elvis Palma/Agora Laguna
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Berço do fundador da imprensa catarinense, a cidade de Laguna tem três emissoras de rádio e uma virtual, dois jornais semanais e um portal de notícias. Todos estes veículos de comunicação assumiram um papel importante durante a pandemia do novo coronavírus: levar a informação de uma forma correta, clara e com credibilidade.

Com as normas de distanciamento social, as redações foram fechadas e migradas para o home-office, os contatos com os personagens da informação passaram a ser feitos de forma remota e o uso da tecnologia foi ampliado.

“A maior dificuldade que sentimos no início da pandemia, foi, sem dúvidas, a restrição quanto a entrevistas presenciais nos estúdios da emissora, coisa que hoje já estamos realizando com todos os protocolos de saúde necessários”, revela o radialista Paulo Cereja, 53, apresentador dos jornalísticos da Rádio Mix Sul FM.

Outra realidade foi vivida por João Batista Cruz, 75, da Rádio Difusora. Diferente de Cereja, Cruz faz parte do grupo de risco da doença devido à idade e precisou se adaptar por completo à nova realidade. À frente do matinal Rádio Revista, o rádio-jornalista começou a fazer o programa de sua casa, pela internet. “É um negócio diferente, uma situação nova. Realmente, nessa vida de mais de 60 anos de rádio, acredito que muda bastante a nossa forma de se apresentar na realização do programa, mas o principal é termos a confiança do ouvinte que nos acompanha”, comenta.

Mesma situação compartilha o jornalista Márcio Carneiro, 70, do Jornal de Laguna. Com mais de 50 anos de atuação na imprensa falada e escrita, ele precisou fechar a redação do semanário e migrar as relações jornalísticas para os canais virtuais e telefônicos. As reuniões de pauta que aconteciam semanalmente, passaram a ocorrer por WhatsApp ou outros meios.

“Até pensei que esse período fosse criar todo tipo de problema, mas, felizmente, logo todos nos adaptamos e assim garantindo a produção de textos para as mais de 52 edições. Tudo é feito com muito cuidado e carinho, sempre mantendo a ética e a verdade na informação. Seja aqui, numa cidade pequena ou nos maiores centros, com mais instantaneidade”, diz Carneiro.

Quem também migrou para o lado digital foi Paulo Sérgio Silva, 69, com o semanal O Correio. “Acredito mais do que nunca que estamos tendo o direito de ser chatos; insistimos alertando a população sobre as regras básicas para que a pandemia não evolua, mas é natural que encontremos barreiras e pessoas desinformadas, que fazem com quem tenhamos problemas sérios. O jornal se adaptou de que forma? Restringimos as assinaturas impressas, pois os assinantes achavam complicado higienizar o papel e a exposição do entregador e partimos para a versão virtual, para dar mais agilidade à notícia também com o nosso site”, relata o jornalista.

Na rádio comunitária Hits FM, protocolos foram adotados. “Passamos pelas mesmas dificuldades de todas as empresas, mas estamos tomando todas as precauções, mantendo a programação normal, porém com restrições que são obrigatórias. Estamos sem o atendimento público e o único programa que tem entrevistados é o do radialista Jota Raulino”, descreve Dilmara Fernandes, gestora do veículo.

“Como todo meio de comunicação da nossa cidade, a gente teve que se adaptar ao novo jeito de trabalhar. Poupamos os nossos colaboradores, fizemos um jornalismo diferente, mas sempre buscando o melhor da informação”, afirma o diretor da Rádio Laguna Web, Gabriel Honorato, que assim como os demais veículos, também adotou os protocolos sanitários na emissora como exigência de máscara e uso do álcool em gel. “A gente procura evitar estar na rua diariamente, mas sempre com os cuidados, saímos em busca de matérias”, pontua.

Batista Cruz, Paulo Cereja, Márcio Carneiro e Paulo Sérgio Silva: período de adaptações – remoto ou presencial, mas com cuidados. Fotos: arquivos pessoais.

Papel vai muito além de informar

“Neste momento o papel da imprensa é importante e com cuidados redobrados, como o de lidar com a informação, verificar a melhor forma de como deve chegar ao seu ouvinte, checar as fontes por conta das fake news – que são muitas – e informar da melhor maneira possível. Também acredito que muitos dos ouvintes que ligam numa emissora de rádio hoje querem ouvir palavras de esperança, e esse deve ser o nosso norte”, opina Paulo Cereja.

Essa ideia também é compartilhada na WebTV Nossa Gente. “Durante esses dias difíceis de pandemia, busquei a melhor forma de deixar a população informada. As lives tinham como objetivo, mostrar quem estava se sobressaindo com diversos setores cheio de restrições. A WebTV faz o papel de informar e atualizar nossa cidade”, concorda o comunicador Anderson Rocha, o Rochinha, 51, idealizador da emissora online.

A missão de noticiar os fatos, sejam bons ou ruins, também passa por registros fotográficos. Elvis Palma, 56, colaborador do Portal Agora Laguna, sabe bem a responsabilidade que tem ao empunhar a máquina. “É de fundamental importância qualquer publicação que traga informações verdadeiras sobre o atual momento. E através das fotos é possível retratar momentos e situações com um maior fundamento”, pontua o profissional.

“Estamos vivendo a história e ajudando a escrevê-la. Estar na linha de frente da informação é um trabalho de responsabilidade e sobretudo de credibilidade. O dia a dia da nossa profissão é baseado em estar atento a tudo que acontece para levar a notícia de uma forma direta, clara e com a certeza de que fará a diferença na vida de quem a consome. Seguimos adiante, pois onde tem notícia, tem um jornalista para registrá-la”, frisa o jornalista Luís Claudio Abreu, 20, da Difusora e do Portal Agora Laguna.

Gabriel Honorato, Dilmara Fernandes, Anderson Passos, Elvis Palma, Luís Abreu e André Luiz: informação com responsabilidade. Fotos: arquivo pessoal.

Serviço essencial à população

“Principalmente nesse momento de pandemia que estamos vivendo. É onde se recebe informação de qualidade e nesse tempo de fake news que causam pânico, surge como papel essencial veiculando o que é verdadeiro”. A afirmação é da presidente do hospital de Laguna, Tatiana Mansur Blosfeld, 37. Assim como a saúde, a imprensa tem desenvolvido um papel fundamental para ligar o seu consumidor final, seja ouvinte, leitor ou telespectador, com a fonte da informação.

É o mesmo sentimento que faz a dona de casa Maria da Glória, 73 anos, ligar o rádio de manhã cedo todos os dias. “Acordo e tomo o café ouvindo as notícias. Gosto de saber como está o meu bairro, se teve muito caso positivo ou muitos curados. Pulei de alegria quando falaram que quem tem a minha idade já iria tomar a vacina”, comemora.

A informação correta em meio à um mar de desencontros provocados por notícias falsas tem sido fundamental. “Sociedade sem jornalismo é uma sociedade que padece de uma doença sem cura. Ainda que a democracia não seja perfeita, ela nos assegura a liberdade. E temos na imprensa livre a vacina para nunca deixar a democracia adoecer”, afirma o radialista Silvano Silva, presidente da Associação Catarinense das Emissoras de Rádio e Televisão (Acaert).

O ser essencial e a valorização são os temas de uma campanha lançada hoje pela Associação Catarinense de Imprensa (ACI). “Queríamos de alguma forma contribuir para elevar a autoestima dos profissionais que estão na linha de frente da notícia. O jornalista e o jornalismo têm sofrido repetidos ataques e entendemos que é dever da Associação proteger e defender uma profissão tão importante para a sobrevivência da democracia”, pontua Déborah Almada, presidente da entidade. A campanha teve lançamento virtual.

Imprensa catarinense, 190 anos

Em meio ao segundo ano de pandemia, a imprensa de Santa Catarina também registrará uma marca simbólica: 190 anos de sua fundação. Ela surgiu em 28 de julho de 1831, com o lançamento de O Catharinense, em Florianópolis, editado pelo militar Jerônimo Francisco Coelho (1806-1860), que já expressava o sentimento de independência com seu lema: “União ou liberdade. Independência ou morte”. O fundador – cujo busto ilustra a matéria – todo ano é reverenciado pelos membros da imprensa de todo o estado.