‘Fui a primeira pessoa diagnosticada com Covid em Laguna, e, infelizmente, não fui a última’

"Sigo todas as recomendações de segurança, mesmo tendo sido contaminada, muito pouco se sabe sobre a imunidade daqueles que se contaminaram, por isso mantemos as medidas sanitárias". E diz, esperançosa: "Torço que a vacina chegue rapidamente a um grupo maior de pessoas, e que ninguém mais precise passar pelo que passamos – ou coisa pior".

Tudo começou em uma festa de aniversário. Uma pessoa infectada, espalhou para outra, que passou para uma terceira e assim, sucessivamente. O início do novo coronavírus na região da Amurel foi naquela confraternização de amigos, que terminou com vários casos confirmados – e alguns, infelizmente, fatais.

Isabel Cristina Inácio, 55 anos, estava entre as convidadas para a confraternização. A moradora do bairro Magalhães ficou na mesma mesa em que estavam duas mulheres, que apresentaram sintomas e testaram positivo dias depois da festa. Três dias depois daquele que era para ser mais um momento de alegria e diversão, os primeiros sinais da contaminação começaram a surgir.

Quando o município abriu o centro de triagem, ainda no bairro Progresso, ela foi a primeira pessoa a buscar atendimento e fazer a coleta de exame. Laudos que atestavam a infecção ou não eram produzidos somente por meio da coleta swab (RT-PCR), uma vez que o teste rápido ainda era visto com incredulidade e nem era oferecido na rede básica.

Isabel fez a coleta e o suspense pelo resultado levaram ao surgimento de muitos boatos sobre si. Foi só em 23 de março, pouco mais de cinco dias do envio das amostras para o Laboratório Central (Lacen) que chegou a confirmação: a moradora do Magalhães era, oficialmente, a primeira paciente com coronavírus da cidade juliana.

“Um ano atrás, quando contrai Covid em uma festa de aniversário, muito pouco se sabia sobre a doença, sobre sua letalidade, capacidade de transmissão e cura. Sofri muito preconceito, porque a desinformação fez com que as pessoas disseminassem histórias inverídicas, que atacaram, inclusive meus familiares”, recorda a lagunense, em depoimento enviado à reportagem do Portal Agora Laguna.

Em casa, isolada do mundo exterior, Isabel teve na família o pilar de sustentação necessário para que atravessasse essa experiência. “O tempo foi o grande remédio, e o grande fator de elucidação da doença, hoje sabemos que o que passei foi apenas um preludio do que viria, o medo que a população sentia naquele momento da minha contaminação foi passando e com isso o vírus foi disseminando, ficando mais forte, e atingiu muitos amigos aqui de Laguna, levando a óbito, inclusive”, observa.

Um ano

Atualmente, um ano depois, Laguna atravessa o momento mais crítico do seu sistema de saúde dos últimos cem anos. A cidade perdeu 30 moradores só em março e viu uma explosão no número de pacientes com diagnósticos positivos e aqueles que são suspeitos, isto é, que aguardam pelo resultado.

A terra de Anita Garibaldi perdeu nomes de sua cultura, como Glorinha Pegorara e Jairo Baião. Do empresariado, como Jucíria (Jô) May. Do esporte, como Admar Cardoso, o Zico, técnico que profissionalizou o amador. Da política, como Luiz Felipe Remor. Ou nomes nem tão conhecidos do grande público, mas que tinham papéis importantes na sociedade, como a servidora pública Ilze Maria, o alegre Jorge Lima, a simpática dona Nair. E pôs fim a histórias tão românticas, como a do seo Tinho e a dona Norma, casados por mais de meio século e que sempre reuniam a família em torno de si para celebrar a felicidade em viver.

São mais de 82 despedidas sem abraço, depressa e de um jeito tão abrupto quanto à avassaladora onda de contaminação que se quebra sobre o mapa de Santa Catarina, endossada com a variante brasileira, tão feroz como a Covid-19, sua gênese.

Por outro lado, é preciso destacar que em meio a esse cenário trágico, muitos souberam se reinventar. Alguns fizeram máscaras, outros produziram lives, as religiões foram para a web, a solidariedade falou muito alto e deu até para produzir música.

Mas, mesmo assim, é preciso continuar se cuidando e Isabel Cristina Inácio ressalta: “Sigo todas as recomendações de segurança, mesmo tendo sido contaminada, muito pouco se sabe sobre a imunidade daqueles que se contaminaram, por isso mantemos as medidas sanitárias”. E diz, esperançosa: “Torço que a vacina chegue rapidamente a um grupo maior de pessoas, e que ninguém mais precise passar pelo que passamos – ou coisa pior”.