Xavante em algum carnaval de Laguna. Foto: Arquivo/Xavante

Quando eles se apresentaram a primeira vez, a Segunda Guerra Mundial havia acabado, a televisão ainda não existia no Brasil, que tinha recém empossado o presidente Eurico Gaspar Dutra, eleito após 15 anos sem eleições diretas. Laguna ainda se informava através do jornal O Albor e o rádio ainda engatinhava. Nesse cenário surgiu há exatos 75 anos, o Clube Carnavalesco Xavante.

Considerada a pioneira das escolas de samba e a mais antiga do Sul ainda em atividade, o Xavante nasceu como uma ala dentro da estrutura do Bola Preta, um dos cordões carnavalescos que animava o Carnaval de salão de Laguna.

“O nosso povo somente pôde divertir-se um pouco, graças ao cordão ‘Índios Xavantes’, com suas danças”, relatou o jornal O Albor, em uma nota de 1948, sobre como ocorreram as folias de momo. A descrição do jornalista daquela época pode ter sido a inspiração para um dos versos de um samba enredo antigo: “Eu sou Xavante e o povão se manifesta; aguenta coração, que a Laguna está em festa”.

O bloco que virou escola foi fundado, em 22 de fevereiro, graças a um jovem de nome Barbosa, que conquistou a apoio de outros lagunenses como: Remi Firmino, Itanê Schneider, Valmir Guedes e Ibrahim Abrahão todos já falecidos participaram da fundação, além de Álvaro Ávila, que também participou no início da formação da taba. E eles faziam jus ao nome: desfilavam de índios, com penas, saiotes e corpo pintado.

Foto: Elvis Palma/Agora Laguna

O cordão tinha como sede o Centro da cidade e não tardou muito para ir para o Magalhães, onde segue até hoje. Os bolas Preta e Branca desapareceram na década de 1970. Xavante e Brinca Quem Pode (oriunda do Bola Branca), que já desfilavam sozinho há um tempo, se juntaram aos outros blocos, que evoluíram para um Carnaval diferenciado: o das escolas de samba, aos moldes do que já existia no Rio de Janeiro, que já atraía olhares atenciosos naquela época.

Quando começaram a disputar havia a Portela (1961), a Mangueira (1955), Democratas e Vila Isabel (1958). Depois de um tempo, entram Os Bem Amados e Amigos da Onça – entre os anos de 1970 e 1990 mais algumas agremiações surgem na passarela. Na nova fase, que por um tempo chegou a ser incorporada em seu nome (Escola de Samba Xavante), os índios conseguiram obter 33 títulos de campeã do Carnaval lagunense.

“O Xavante para mim é tudo na minha vida. Minha juventude foi aqui dentro e até hoje estou aqui”, afirmou o presidente da agremiação, Márcio Cardoso (o popular ‘Pururuca’), em uma entrevista à NSC TV este ano.

Oficialmente, a taba não disputa um troféu desde 2013, quando ocorreu o último desfile ‘pra valer’. A partir de 2016, o Xavante monta fantasias apenas para o pré-carnaval, que era o ensaio para a competição e hoje se tornou a única forma de se manter viva a tradição quase centenária.

À frente da vermelho-azul-e-branco há alguns anos, a rainha de bateria Gisele Pavanate, hoje residindo no Espírito Santo, guarda um carinho enorme pelo Xavante – e isso já vem de família.

“Nasci no Magalhães, do lado do Xavante. Mas antes disso, meus pais se conheceram lá dentro [da escola]. Antigamente tinha os bailes… discotecas aos domingos. Eles se conheceram e desse romance nasceram eu e meu irmão – vem de berço“, conta. “Desde que me entendo por gente, eu desfilo no Xavante.

Gisele passou por uma evolução dentro da agremiação: de passista à rainha da bateria, onde desfilou pela primeira vez aos 16 anos de idade, tendo alguns momentos em que não pôde ficar à frente da bateria por ter sido rainha do Carnaval – e não é permitido que a majestade defenda uma escola, mas ela se mostra contrária a essa regra. “Creio que tem 20 anos que desfilo como rainha, tá na hora de me aposentar”, brinca, mas confessa que devido ao amor pelo Xavante e pela folia de Momo, essa ideia está longe de se concretizar.

Foto: Arquivo pessoal

Preservar o passado para o futuro

“O Xavante faz parte da sociedade lagunense como fator preponderante de resguardar a cultura de Laguna. E agora completa 75 anos, são bodas de brilhante”, avalia Cristian Pavante, irmão de Gisele, que assim como ela também nasceu com o sangue xavantino.

Para ele, 75 anos de história não é qualquer entidade que faz e isso motivou a base de um enredo em construção de denominado ‘Pedras preciosas’, surgido a partir de ideias do próprio Cristian, com Sérgio Guedes e Adimar de Córdova, integrantes da diretoria carnavalesca. Quando será apresentado? Só o futuro saberá dizer.

E é pensando no futuro que o xavantino foi contemplado pelo Edital Elisabete Anderle para produzir um minidocumentário para preservar para a posteridade algumas das histórias não contadas do Carnaval de Laguna. Momentos que só existem na lembrança de quem viveu a folia de Momo na cidade juliana.

“É uma proposta diferente: fazer um resgate do Carnaval de Laguna priorizando a história não contada. As pessoas que fundaram as escolas estão indo e as histórias vão junto, não há um trabalho para deixar gravado essas memórias. A proposta do meu trabalho é um minidocumentário de oito minutos que conta a história das agremiações”, explica.

A principal dificuldade do produtor não é achar personagens e sim reduzir as histórias em um curto tempo. Mas, revela Pavanate, há uma solução para isso: “Vamos apresentar em escolas, exclusivo para alunos. Não vai dar para colocar todas as histórias e então, o Thiago Laurindo (autor e professor) irá contar essas memórias que não deram para entrar no minidocumentário”.

A apresentação do material gravado também inclui uma aula de evolução da escola de samba e um show memorial da bateria A Ousada, relembrando vários enredos que ficaram na lembrança do lagunense. A estreia do projeto, porém, depende ainda de dois fatores: as aulas presenciais nas instituições de ensino e o comportamento da pandemia do novo coronavírus. Ainda sem data para ser apresentado, o minidocumentário segue na fase de montagem, uma vez que as histórias já foram gravadas.

Xavante em algum carnaval de Laguna. Foto: Arquivo/Xavante