Foto: Gui Preuss

Quem passou na manhã deste sábado, 21, pelo Centro Histórico, viu que o monumento em homenagem ao fundador da cidade, Domingos de Brito Peixoto, amanheceu com uma intervenção.

A ação, ainda sem autoria declarada, colocou correntes na mão da estátua do bandeirante ligadas a figuras de negros escravizados, questionando quantas vidas seriam necessárias para erguer os impérios da cidade. A intervenção artística ocorreu durante a madrugada e foi realizada um dia após a data que marcou a celebração da Consciência Negra. O dia 20, lembra a morte do líder negro Zumbi dos Palmares, atribuída à data.

Juliana Regazoli, pesquisadora da história e cultura afro-brasileira, vê a ação como positiva. “Questionamento mais que necessário, quando vemos ainda hoje Domingos de Brito Peixoto sendo homenageado enquanto herói e fundador da cidade. Não podemos esquecer que o bandeirante trouxe em sua comitiva inúmeras pessoas escravizadas, além de ser responsável pelo assassinato dos povos indígenas, nativos deste território”, afirma a especialista.

À reportagem, a pesquisadora encaminhou trechos de dissertações acadêmicas que revelam a estrutura escravagista vinda com os designados pela Coroa portuguesa para povoar o Sul do Brasil. Um dos documentos cita João Rodrigues Prates, português contemporâneo de Francisco de Brito Peixoto, filho do fundador de Laguna, que trouxe consigo 47 pessoas escravizadas rumo aos campos de Viamão, no atual estado do Rio Grande do Sul.

Ao analisar a intervenção, ela pontua que a ação fomenta um debate. “Acho que o importante disso tudo é debatermos com o poder público sobre a manutenção da homenagem como ‘herói fundador’ de Laguna, em que lhes oferecem anualmente uma corbélia de flores. Além disso, a intervenção traz uma pergunta bastante pertinente, ‘Quantas vidas serão necessárias para erguer os impérios da cidade?’, diante do racismo e exploração do povo negro que persiste até os dias atuais e, infelizmente, ao custo de muitas vidas, como o ocorrido em um supermercado de Porto Alegre, com João Alberto Silveira Freitas, morto às vésperas do 20 de Novembro”, diz.