Em outubro de 2018, em um dia chuvoso, mais um raio ocorreu no Brasil. Quase dois anos depois, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou que essa descarga elétrica, registrada entre as divisas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, passou a ser considerada como a maior do mundo, junto com outro “megaflash” flagrado na Argentina.

A informação foi divulgada pela entidade na sexta-feira, 26, mas só na segunda-feira, 30, é que foi confirmado que o raio começou em solo catarinense, com ‘ponto de partida’ na cidade de Campos Novos. A descarga elétrica se ramificou atingindo também o Oeste do estado gaúcho e ‘caminhou’ pelos céus da Serra, Sul e Extremo Sul de Santa Catarina, incluindo Laguna (veja no vídeo acima).

Esse recorde teve a distância linear estimada em 709 quilômetros. “Se consideramos todo o caminho percorrido e a tortuosidade, essa distância é ainda maior. Ele teve início em Campos Novos e se ramificou para dois lados. Uma seguiu para a cidade vizinha Zortéa e então para Oeste e Noroeste do Rio Grande do Sul, até atingir a Argentina”, detalha a professora e pesquisadora Rachel Albrecht, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Portal Agora Laguna.

A outra ramificação foi a que atingiu Laguna. “Seguiu de Campos Novos para o Sul, passeando pelo Rio Grande do Sul até chegar no oceano, onde retorna para o Litoral de Santa Catarina, parando já nos arredores de Braço do Norte e Armazém […] logo, o caminho percorrido é muito maior”. Apesar da distância, o raio não chegou a tocar o solo, sendo considerado um raio intra-nuvem.

A detecção desse raio foi possível graças a um sensor específico, que fica a bordo de um satélite, mapeando a emissão de ondas eletromagnética no topo das nuvens. Essa irradiação não é vista a olho nu, por isso o sensor usa um filtro especial e registra possíveis focos de raios a cada dois milissegundos. A junção de imagens digitalmente permite que se crie um mapa da distância percorrida pela descarga elétrica.

A especialista conta que desde 2017 o satélite está em operação, gerando um grande volume de informações a cada dois milissegundos, o que explica o fato de uma descarga elétrica de outubro de 2018 ter sido analisada apenas um ano e meio depois de ter ocorrido.

O estudo de como se comportam as descargas elétricas naturais vai muito além de um recorde como este quebrado pelo Brasil. As análises ajudam a entender o comportamento de um raio. “São muito importantes do ponto de vista da segurança púbica, social e climática”, avalia a professora. De acordo com um levantamento Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat/Inpe), 78 milhões de raios caem todo ano no país e a cada 50 mortes no mundo por descarga elétrica, uma ocorre em solo brasileiro (veja cuidados abaixo).

“Os recordes também ajudam no aprimoramento da engenharia de proteção contra raios, pois não tínhamos ideia de que um raio podia correr um caminho tão longo e durar tanto. Outro ponto importante é a documentação e monitoramento desses extremos, pois as pesquisas sobre mudanças climáticas apontam que cada grau a mais registrada na temperatura global pode aumentar a incidência de raios na terra”, finaliza.

Megaflash na Argentina

Outro recorde registrado foi na Argentina, também na América do Sul. A OMM anunciou que o raio de maior duração já visto com 16,73 segundos, foi detectado em 4 de março de 2019 no Norte argentino. A duração é mais que o dobro da anterior documentada.

“Esses são registros extraordinários de eventos únicos de relâmpagos e eventos climáticos extremos são medidas vivas do que a natureza é capaz”, escreveu, em nota, Randall Cerveny, chefe de eventos extremos da OMM.

Cuidados

Em dias chuvosos com maior propensão a queda de raios, as pessoas devem tomar alguns cuidados para evitar acidentes com as descargas que, em muitos casos, podem ser fatais. A recomendação principal é não sair e nem permanecer na rua durante as tempestades. Assim como procurar algum abrigo como, de preferência, com proteção contra raios. Carros ou veículos não conversíveis, incluindo ônibus, também servem como lugar seguro nestes casos.

Dentro das residências, a recomendação é para que se evite o uso de telefone com fio ou celular ligado à rede elétrica, ficar próximo de tomadas, canos, janelas e portas metálicas ou tocar em equipamentos ligados à eletricidade.

Na rua, evitar ao máximo segurar objetos metálicos longos, por exemplo: varas de pescas ou tripés; e também empinar pipas ou aeromodelos de fio. A recomendação é para que não sejam feitas atividades ao ar livre, como andar à cavalo.

Locais que possam oferecer pouca ou nenhuma proteção contra raios, devem ser evitados. São exemplos: pequenas construções não protegidas, tais como celeiros, tendas ou barracos; veículos sem capota, tais como tratores, motocicletas ou bicicletas; ou estacionar próximo a árvores ou linhas de energia elétrica.

Áreas abertas são consideradas de grande perigo, incluindo campos de futebol, assim como estacionamentos abertos, quadras de tênis, topos de morros, cordilheiras, prédios. A proximidade de cercas de arame, varais metálicos, linhas aéreas, trilhos, árvores isoladas, torres metálicas de transmissão de comunicação ou eletricidade, também devem ser evitados.

Se você estiver em um local sem um abrigo próximo e sentir que seus pelos estão arrepiados, ou que sua pele começou a coçar, fique atento, já que isto pode indicar a proximidade de um raio que está prestes a cair. Neste caso, ajoelhe-se e curve-se para frente, colocando suas mãos nos joelhos e sua cabeça entre eles. Não fique deitado.