Foto: @aliciamarquesq/Mocidade Independente

Não fosse a pandemia do novo coronavírus, este sábado, 18, seria de muita festa e samba em um cantinho conhecido como ‘ninho da serpente’, no bairro Progresso, em Laguna. Há 40 anos, nascia a caçula das escolas de samba, a verde-e-branco Mocidade Independente, criada em julho em 1980.

A ideia de fundar a agremiação veio de Neli da Silva, que convidou mais alguns membros da Brinca Quem Pode, que estavam descontentes com a ‘academia do samba’, e deixou com eles a possibilidade de fazerem surgir uma nova escola para o Carnaval de Laguna, que nessa época ainda contava com a Acadêmicos do Magalhães e a Bem Amados.

“Parece que foi ontem”, lembra João de Sousa Junior, o conhecido ‘Dão’, que foi um desses convidados para fundar a agremiação. “A princípio não acatei muito a ideia, mas outros companheiros que lá estavam, queriam fazer uma nova escola e no fim foi bom até para o Brinca Quem Pode, que também se reergueu”, lembra. Uma curiosidade dessa criação foi que dona Neli não participou da fundação.

“O grupo se reuniu na casa da minha irmã Tereza, aqui na Roseta [denominação do bairro Progresso até 1967, mas ainda usada informalmente], numa noite, e aí foi fundada a Mocidade Independente”, conta Dão, que foi presidente da verde-e-branco e hoje comanda a liga das escolas de Laguna.

Entre os principais fundadores da Mocidade, estão: Ivo Coelho, Flávio Rogério de Oliveira, Moacir Luiz, Demerval Batista, Aldo Campos, Ademir e Ataíde Roque, Roberval Pacheco, Emília Bernardo Vieira, Helio Pacheco e José Manoel Vieira, este último o primeiro presidente.

A escola surgiu e contou com apoio de muitas pessoas já ligadas ao Carnaval de Laguna e também da sociedade local, como o então vice-prefeito João Gualberto Pereira (PDS, na época), que auxiliou na busca de apoio para o registro da agremiação.

Por outro lado, teve quem duvidasse. Dão recorda que um ex-prefeito havia acabado de ser eleito presidente da Bem Amados e ao ser perguntado por um repórter da Rádio Difusora o que achava do surgimento de uma nova escola de samba, respondeu quer era ‘fogo de palha’ e previu que a agremiação não duraria muito tempo e que, não era de se espantar, sem nem saísse para um desfile. “O pior é que a escola de samba que ele foi eleito presidente, não saiu na rua, acabou e a Mocidade continua até hoje, 40 anos de muita alegria, glória e colaboração com a cultura da cidade”, completa Dão.

Logo no primeiro ano de desfile oficial, a Mocidade conseguiu ficar entre as quatro primeiras colocadas, ficando à frente, inclusive, da Brinca. O enredo defendido foi “No mundo do faz de conta”, composto pelo lagunense Ivaldo Roque, que fez a letra como um presente para a agremiação, em conjunto com Robson Baranho. Roque permitiu que a escola levasse à rua os personagens infantis das histórias mais conhecidas do público.

Ponto alto da história da verde-e-branco, foi a conquista do título em 2000. Jairo Barcelos compôs o enredo “Do fogo nasceu a vida”, defendido por Sidney, Glorinha Barreto Pegorara e Gelson Pacheco, o ‘Bizorro’. Já naquela época presidida por Fátima Regina Marçal, a caçula trouxe para a passarela uma apresentação tendo o fogo como elemento, fenômeno, alegria, paixão, luz e calor, o associando à vida. A dose foi repetida em 2001, falando da Lua – samba recuperado no pré-carnaval de 2020 – mas o título não veio, apesar do favoritismo. “Consideramos até hoje uma roubalheira o que fizeram”, afirma Dão.

Sempre convivendo com incertezas se haverá ou não apresentação no ano – a última vez em que houve desfile oficial, com competição, foi em 2013 –, situação que foi agravada com a pandemia, a caçula mostra garra e força de vontade em não deixar o samba morrer, como diria a canção, de Alcione.

“É uma escola que sempre saiu bem, foi injustiçada muitas vezes não conseguindo o título. Não temos dificuldades com componentes, mas temos dificuldades financeiras, por exemplo, não temos uma sede própria. Mas, a gente está indo nessa, trabalhando e sempre batalhando para que a escola não desapareça”, pontua Dão. Atualmente, cerca de 300 pessoas fazem parte da Mocidade.

Samba no sangue

“Mesmo sem muito apoio no Carnaval, a Mocidade vai continuar. É uma coisa de família, a exemplo do Brinca Quem Pode, que passou de pai para filho e isso vai acontecer com a nossa escola”, prevê Dão. A família participa do dia-a-dia da escola de samba, em diferentes funções. Na diretoria, ou na passarela não parando de sambar por uma fração de segundo sequer.

Gabriel Marçal é um destes que não deixa a peteca cair, melhor, que não deixa a bateria perder o ritmo. Para ele, carregar consigo a tradição família não é fácil: “Mas se torna porque a gente gosta disso e eu, falando por mim, eu amo tudo isso… Nasci dentro desse meio”

Há cerca de quatro anos, ele lidera a ‘Chapa Quente’, que dá o tom aos sambas-enredos da Mocidade ano a ano. O nome da bateria surgiu em 2014, na época da definição do tema para o desfile de 2015 (que não ocorreu), que, em um dos versos, assim a chamava.

Dentro da Mocidade, ele trocou de função e passou de mestre-sala para mestre de bateria. “Desde que meu parceiro, o Jonatan, era o mestre de bateria da Mocidade, eu já participava do processo de criação das bossas, de como iríamos trabalhar, e quando o mestre Nego veio para cá, continuei auxiliando e quando ele se aposentou, assumi a bateria”, lembra Gabriel.

Na linha de frente da escola de samba está Júlia Marçal, que tem uma função importante no desfile. É dela a responsabilidade de carregar o pavilhão verde-e-branco, do início ao fim da passarela, iluminando a apresentação com alegria e graciosidade.

“Participar da Mocidade Independente pra mim é uma grande honra, realização e aprendizado”, define a porta-bandeira, que entrou para a escola ainda pequena. “Faz parte da minha vida desde sempre”, diz.

“Eu não tenho palavras pra descrever o que sinto quando empunho o meu pavilhão, eu tento transmitir através da verdade da minha dança e exaltação que trago para ele. Afinal, ele representa toda uma comunidade apaixonada. Parabéns minha escola querida, és o amor da minha vida no mundo do carnaval”, conclui.

O estandarte verde-e-branco é “protegido” por dois mestre-sala que ajudam Júlia na apresentação, compondo com ela, a defesa do pavilhão. Um deles veio de Florianópolis para Laguna, é Wallacy Cardoso, que há três anos participa dos desfiles. “É um aprendizado participar do desfile. A Mocidade é amizade, é garra, é festa. Fui tão bem recebido, que não troco a escola por nenhuma outra aí de Laguna”, afirma.

A mesma visão é compartilhada pelo segundo mestre-sala da caçula, Luiz Johnson Costa. “Entrei para agregar, conhecer e evoluir como bailarino e mestre-sala. Há dois anos que venho nessa pegada com a Mocidade, onde sou bem-vindo, aceito e me orgulho de dizer que é a escola de samba que realmente vê o Carnaval de outra forma”, destaca.

Foto: @aliciamarquesq/Mocidade Independente

Rainha é destaque à frente da bateria

Levada pelo pai, Josy Kelly entrou para a Mocidade em 2011, após passagens como dançarina de bandas como TopBannda e Juízo, e pelas escolas Xavante e da Vila Isabel. “Minha vontade era de dançar no chão, destaque, porque gosto de aparecer”, revela. Após uma conversa com a presidente Fátima Marçal, recebeu o convite para assumir um posto de destaque, o de rainha da bateria.

De lá para cá, já são nove anos à frente da bateria Chapa Quente. Ao Portal Agora Laguna, ela revelou o passo-a-passo de seu desfile e contou que é o primo Renato Dias, seu principal parceiro. Além de confeccionar as roupas usadas na apresentação, ele grava os desfiles para que ela possa ver onde errou e fazer melhor no dia seguinte.

A parceria também é estendida ao mestre Gabriel Marçal. “Faço parte da bateria, e isso é muito importante. Não fico só rebolando na frente da bateria, eu entendo o que é pra fazer e nós interagimos sempre quando ele ou eu queremos fazer algo diferente na apresentação”. A rainha também é ladeada pela madrinha de bateria, Lidyane Batista, que mantém a cadência do samba a todo momento.

“Vão fazer dez anos e para mim não existe outra escola, e a hora que tiver que parar e passar o posto, vou sair e vou permanecer… seja na diretoria, na frente de alguma ala, de alguma forma eu vou continuar”, afirma a rainha. Josy Kelly se lançou, nessa época de pandemia, no mundo das lives e antecipa que pretende fazer em seu Instagram (@josykellystor), uma conversa com a Mocidade para falar desses 40 anos.

Foto: @aliciamarquesq/Mocidade Independente

Espelho do samba: mãe e filha

Carla Beatriz Sanchez também traz o Carnaval na veia. A família tem uma ligação enorme com as escolas, a mãe, por exemplo, foi costureira e ajudou na montagem de muitas fantasias para as apresentações. Ela cresceu vendo o samba, já que em frente à sua casa, havia a sede da Acadêmicos do Samba, que ficou no passado histórico carnavalesco da cidade.

Ali ela começou a acompanhar uma escola, quando tinha pouco mais de cinco anos, e só caiu na passarela por insistir muito para que a mãe a levasse. Órfã da Acadêmicos, começou a buscar uma cidade que o coração a atraísse. “Quando ouvi a bateria na Mocidade, não consegui parar de me arrepiar e falei: ‘É essa a escola que é a dona do meu coração’”, conta.

Musa da bateria Chapa Quente, Carla continua até hoje na verde-e-branco, mas teve um ano em que não desfilou. Grávida de Maria Laura, ela ficou apenas acompanhando a escola e sentindo o mesmo arrepio, que dava vontade de cair no samba. E como até aqui foi mostrado que a história da Mocidade é algo que está na veia, assim também aconteceu com Carla e a filha.

Aos sete anos de idade, a pequena Laurinha já desfila com a Mocidade e recebeu o título de rainha-mirim. No pré-carnaval, roubou a cena e mostrou disposição até o final, inclusive quando o desfile rompia a madrugada. E isso surpreendeu todo mundo, já que ela foi numa das apresentações do pré de 2018 e no dia seguinte, em casa, reproduzia tudo o que havia visto, imitando as passistas e cantando o samba-enredo. “Não acreditei quando vi. Ela que me trouxe de volta para a avenida”.

Para a mãe, só há uma explicação possível para a menina demonstrar tanta ligação com o samba: “Acho que foi isso [essa sensação vivida no desfile em que Carla não saiu] que fez a Laurinha viesse com esse amor todo pela verde-e-branco e isso foi uma surpresa para nós”.

Carla e Laura – Foto: @aliciamarquesq/Mocidade Independente

Futuro: 80 anos de Glorinha, 40 de Mocidade

O coronavírus trouxe uma realidade diferente. Brasil a fora, se discute a possibilidade uma data para que o Carnaval aconteça fora de época, mas, embora, indefinida a realização da festa mais popular do país, a Mocidade já tem um norte do que irá defender no próximo desfile – quando for possível sair à rua e mostrar um samba.

Em primeira mão, especialmente para o Portal Agora Laguna, a escola liberou a ideia tema que irá defender no próximo ano em que houver desfile ou pré-carnaval. O enredo cita os 40 anos da escola, mas homenageia uma personagem histórica do samba de Laguna: Maria da Glória Barreto Pegorara, que completa 80 anos de idade, no próximo mês.

Aposentada do samba, mas eternizada na história da cultura lagunense, Glorinha, puxou foi a primeira puxadora de enredos mulher das agremiações da cidade. Passou pelos Democratas, Bem Amados e ficou marcada pelas passagens na Mocidade, onde levou toda a família, como o filho Sidney Junior – puxador e o neto, Guilherme, que trabalhou como artesão dos carros alegóricos.

Numa entrevista ao Portal, durante o pré-carnaval deste ano, transmitido também pela Rádio Difusora, ela relembrou rapidamente algumas passagens carnavalescas, inclusive de sua ida para o microfone do enredo, ideia de um radialista, João Manoel Vicente. Mas também revelou: “Sinto tanta saudade, que estou aqui, com essa idade acompanhado, [isso] vem no sangue, corre nas veias, é mais forte que tudo […] o médico me disse que a melhor terapia é cantar e ouvir música”.

Guilherme está auxiliando na composição do enredo que vai homenagear sua vó, que recebeu ano passado o título de rainha do samba, em uma apresentação no Centro Histórico, de pré-carnaval. A criação desse tema e sua defesa em um desfile vão ser acompanhados por um documentário, também criado para preservar a memória de Glorinha Pegorara, segundo informa o neto.

“Vou usar a biografia dela para falar de vários temas que permeiam a história dela a vida artística, a social, correlacionando o samba, a Mocidade, as escolas e Laguna com ela. Vai ser uma oportunidade de reviver em documentário e celebrar em vida essa biografia que representa muito para a cultura de Laguna”, define Guilherme.

Confira a sinopse

Do alto do morro da Barra de Laguna, resplandecia há 80 anos a divina luz que abençoa de vida e música a cidade juliana. Maria da Glória, não é a santa, mas uma mulher cotidiana que tem a alegria de viver e o samba como monumento. 80 anos de Glória, consagra em vida a pioneira cantora das Escolas de Samba de Laguna, sob a ótica de sua biografia, uma viagem na história do Samba que lhe fez rainha, aos bailes, avenidas e palcos que Glorinha brilhou. Um documentário-enredo que que celebrará também, os 40 anos da G.R.E.S. Mocidade Independente, apoteose de uma vida em vida, que o samba fez rainha na terra do Carnaval.