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Foram necessários quase 30 anos para que Juliana [nome fictício*] contasse sua história e relatasse, abertamente, os episódios de abuso sexual que sofreu quando criança. Ela entrou em contato com o Portal Agora Laguna, depois de ler a história de Mariana*, publicada em maio, para falar sobre esse passado triste.

A decisão de contar sua história foi tomada para servir como exemplo para outras jovens na mesma situação, já que na época que ocorreram os fatos, não se tinha educação sexual, tão pouco se debatia assuntos relacionados à estupro de menores de idade. A publicação, nesta quinta-feira, 4, acontece no dia internacional que marca o combate à agressão infantil.

Assim como na história de Mariana, o primeiro abuso sofrido por Juliana também foi cometido por um homem que entrou em sua vida com o companheiro de sua mãe e que lhe deveria dar segurança e proteção. Ela tinha apenas oito anos e seu estuprador era dez anos mais velho. Os abusos iniciaram ainda em Santa Catarina e continuaram, até seus nove anos, menos rotineiramente, no outro estado.

“Eram apenas carícias, toques e eu lembro mais ou menos. Das três vezes que tentou penetração, a tentativa que mais marcou foi a de sexo anal”, lembra, acrescentando que o estupro nunca chegou a ser consumado. Os abusos se resumiram às carícias e a sexo oral forçado. “Ele acariciava minhas partes íntimas sempre e meus seios em formação”, relata.

“Me lembro de quase todos os atos, mas alguns são flashs na memória”, acrescenta. O convívio com os fatos do passado deixou marcas em sua personalidade, principalmente na fase da adolescência. Ela chegou a ter histórico de depressão e sintomas característicos da síndrome de borderline.

“Ninguém deu atenção a minha fala; carreguei essa dor e raiva por anos, fiz terapias, mas ainda sinto as dores emocionais sofridas por isso. É uma ferida que não cicatriza, ficou marcada no psicológico. Não existe remédio que cure”

Juliana tentou contar para alguém o que sofria, mas as tentativas foram em vão, sendo sufocadas por ameaças e descrédito por parte da família. “Ele ameaçava com surras se contasse para alguém. Dizia que não iam acreditar em mim. Tinha razão quando disse isso, pois contei para minha mãe que ele havia beijado a minha boca e levei um tapa no rosto.

Ela disse para que nunca mais falasse isso”, conta. O abusador também lhe agredia quando se recusava a ceder e ainda dizia à mãe que a menina tinha sido “malcriada”.

O primeiro namorado aos 13 anos foi a primeira pessoa que acreditou em Juliana. “Ele me protegia quando o companheiro de minha mãe chegava perto”, conta. A família achava que o fato de ela não chegar perto do namorado da mãe e de sair dos cômodos quando ele chegava, era por ciúmes.

Procurem ajuda. Hoje existe educação e justiça a nosso favor. Quanto mais tarde fizer, pior é. Se todas compartilharem suas histórias,de certa forma dará coragem a outras também.

Aos 15 anos, Juliana perdeu a mãe em um acidente de moto – o companheiro dela sobreviveu. “Devido o choque emocional, ninguém entendia quando dizia que quem deveria ter morrido era ele”. Essa foi a primeira vez que tentou falar com a família sobre o assunto, mas diziam que era invenção da adolescente.

Ela conta que conseguiu vencer a depressão que sofreu e que sempre viveu com o sentimento de justiça carregado consigo. “Tenho vontade de olhar nos olhos dele e perguntar qual seria a reação dele se acontece a mesma coisa com a filha dele”, comenta.

Juliana é catarinense e voltou a viver no estado natal muitos anos depois dos atos. Atualmente, leva uma mais vida tranquila residindo em uma das cidades da Amurel – por preferência dela, não será citado o local – e hoje tem dois filhos. “Não exitem em denunciar! Não deixe o tempo passar para fazer isso”, finaliza.

Conselho Tutelar é aliado nestas situações

São vários os canais de denúncia para casos de abuso ou estupro de vulneráveis. Uma das ferramentas é o Disque 100, ferramenta gratuita para realização de denúncias, que são levadas ao conhecimento do Conselho Tutelar. Outra forma de relatar, em Laguna, é pelo telefone principal do órgão 3644-4082 ou (48) 9 9660-1945 (plantão 24h).

A assistente social Adriana Amorim detalha como o órgão atua. “Quando nos chega uma situação de violência sexual, nós prestamos atendimento à criança e ao responsável. São prestadas orientações quanto ao registro de boletim de ocorrência, realização do exame de corpo delito e em seguida encaminhamos a criança ou adolescente ao Creas, por ser o centro especializado em atendimento às violações”, explica.

A profissional acrescenta que o atendimento evoluiu ao longo do tempo. Uma das novidades é a escuta especializada. “Isso é para evitar que a vítima criança e adolescentes sejam expostos a vários órgãos e tenha que ficar repetindo toda a sua história, o que faz um mal enorme”, justifica. Esse depoimento é feito perante autoridade policial ou judiciária.

“O relato da vítima é muito parecido com tantos outros que nos chegam, e por geralmente ser alguém da família é muito difícil da família denunciar. Isso gera mais sofrimento ainda na criança ou adolescente, por que quem era para defender não o fez”, comenta, sobre a história de Juliana.

Divulgados em maio, os dados do Disque 100 – canal criado para recebimento de denúncias de violações aos direitos humanos – apontam que ao longo de 2019 foram feitos 159 mil registros. Destes, 86,8 mil são de violações de direitos de crianças ou adolescentes, um aumento de quase 14% em relação a 2018. Já a violência sexual responde por 11% das denúncias, cerca de 17 mil ocorrências – uma queda de 0,3% se comparado com o ano anterior.

Outros dados coletados pela reportagem ajudam a trazer um panorama mais local desses casos. Segundo a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e ao Idoso (Dpcami), foram registrados, em 2019, 148 inquéritos policiais, sendo nove sobre estupros de vulneráveis – três são casos de violência doméstica. Se comparado com 2018 houve queda: naquele ano, foram 13 inquéritos de estupros de vulneráveis, sendo cinco referentes a casos ocorridos em âmbito familiar.

Até o final de abril de 2020, já foram registrados 44 inquéritos – dois de estupro de vulnerável. Um dos casos mais recentes ocorridos na circunscrição da Delegacia Regional de Laguna, está em investigação pela polícia de Imbituba.

Leia o relato completo de Juliana*

“Tudo começou quando eu tinha oito anos. Na época ele era namorado de minha mãe – nove anos mais novo que ela e dez, mais velho que eu. Me lembro como se fosse hoje: carícias, toques e masturbação. Ele fazia ameaças de surra se contasse para alguém; dizia que não iam acreditar em mim. Isso se deu até meus nos anos.

Ele não chegou a me estuprar, mas me forçou a fazer oral nele e acariciava minhas partes íntimas sempre e meus seios em formação. Ele tinha razão quando disse que não acreditariam em mim, pois contei para minha mãe que ele havia beijado a minha boca, e levei um tapa no rosto; ela disse para que nunca mais falasse isso.

Tudo aconteceu um pouco antes do período gestacional de minha mãe e estendeu até seu sétimo mês de gestação. Morava com ela em outra cidade e por causa da perda do bebê retornei a minha cidade natal. Lembro-me de quase todos os atos, alguns são flash na minha memória como as tentativas de sexo anal, carícias na genitália, quando forçou a fazer o sexo oral nele.

Eu levei isso comigo por sete anos. Apenas uma pessoa sabia de todo o ocorrido: meu primeiro namorado com 13 anos e sempre me protegia dele. Meus familiares achavam que saia de casa quando ele chegava, pelo simples fato de estar casado com ela. Mas não sentia coragem de contar o que houve, já que todos eram tampados aqui para isso. Não existia educação nas escolas como hoje.

Minha mãe faleceu logo após meus 15 anos e tentei contar pra alguns familiares, devido meu choque emocional. Eu dizia que no acidente quem deveria ter morrido era aquele monstro e não ela. Então contei pra um familiar que, por fim, não acreditou e não levou a sério, achou que estivesse inventando o acontecido.

Tudo resultou em depressão profunda. Ninguém deu atenção a minha fala; carreguei essa dor e raiva por anos, fiz terapias, mas ainda sinto as dores emocionais sofridas por isso. É uma ferida que não cicatriza, ficou marcada no psicológico. Não existe remédio que cure isso.

Fiz tratamento por oito anos para depressão, para superar o trauma que vivi. Consegui vencer a depressão, e não uso mais medicamento há 13 anos.

Na época dos atos, me tornei uma pessoa ruim, temperamento difícil na época. Hoje ainda tenho dificuldade de me socializar de confiar. Mas atualmente, o que eu gostaria de fazer: ajudar todas as mulheres que sofreram com isso.”

* – o nome Juliana é fictício, e foi escolhido para preservar a identidade real da vítima.