Arquivo pessoal

Leni Joana Aguiar Martins nasceu quando o jornal e o rádio eram as principais fontes de informação, o cinema engatinhava e televisão era sonho distante. O mundo não havia entrado na 2ª Guerra e o Brasil se preparava para disputar uma copa mundial pela terceira vez. Uma data especial, como um aniversário, significativa reunir toda a família para colocar a conversa em dia.

Nascida em Tubarão e ex-moradora de Laguna, dona Leni atualmente vive em Porto Alegre (RS), onde mora sozinha – o marido faleceu há nove anos. Aos 82 anos, ela, que já viu dezenas de governadores e prefeitos subirem ao poder e acompanhou transformações significativas no cotidiano nacional, nos costumes e na forma de se comunicar, talvez não imaginasse viver uma situação como a enfrentada globalmente atualmente. E que, por isso, ficasse longe de seus filhos e netos, sem poder comemorar seu aniversário com uma festa para juntar todos eles

As imposições causadas pela pandemia do novo coronavírus impediram que a família se reunisse no último domingo, 3, para celebrar a nova idade da matriarca. A criatividade falou mais alto e os parentes conseguiram achar uma forma de driblar as restrições de convívio e homenagear a aniversariante.

Com a família espalhada pelo Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, dona Leni foi abraçada virtualmente pelos parentes que moram nos dois estados. Hoje morando em Laguna, a filha Maria Regina Medeiros, 54, conta que sua mãe estava preocupada de não conseguir ver os parentes no aniversário. A solução encontrada para isso foi usar a tecnologia.

Através de três videochamadas o aniversário de dona Leni foi comemorado. A primeira foi logo pela manhã, com o bolo e o tradicional parabéns (assista no vídeo). “Cheguei na casa dela com pretexto de um cafezinho de aniversário, e quando apareceu a família na tela e ela pode interagir e cantar parabéns com todos, foi muito gratificante e dava para sentir o amor e carinho, mesmo que distante. Teve festa sim, teve parabéns e teve carinho, uma maneira reinventada, mas cheia de amor”, destaca a neta Kathelline Lopes, 38.

“Não foi fácil vê-la chamando para entrar e não poder abraçar, mas amar é proteger quem corre, mas não entende tão bem o risco. Precisamos reinventar o carinho, mas é muito gratificante saber que podemos estar junto sem estar grudado, porque a proteção é amor e cuidado”, comenta a neta Karen Priscilla, 39 anos, moradora da capital gaúcha.

A segunda conferência aconteceu no almoço e a última, já durante a tarde. Em cada um dos encontros, os familiares do Rio Grande do Sul se revezavam, com distanciamento e proteção, em visitar a matriarca para garantir que ela ficasse ainda mais emocionada. “A gente sempre se reúne, por exemplo, eu sempre vou para Porto Alegre. [Nesse ano] Todos ficaram preocupados em não deixar a data passar em branco”, acrescenta Maria Regina. Os presentes que Leni ganhou foram todos embalados embalados e higienizados.

Para quem cresceu em uma época que para falar com alguém era preciso ir até a casa da pessoa, dona Leni ficou fascinada com a tecnologia. “Ela ficou impressionada por ver todos na telinha. E falava com cada um, pedindo que se cuidassem. Falou que quando tudo isso acabasse iriamos todos nos reunir”, finaliza Maria Regina.

Família durante videoconferência – Foto: Arquivo pessoal