Quando o governador Carlos Moisés da Silva (PSL) decretou que Santa Catarina estava em situação de emergência com fechamento do comércio e suspensão de serviços, informou que estariam autorizados a trabalhar apenas alguns setores da sociedade. Esse grupo seleto foi chamado de linha de frente.

Esse esquadrão de trabalhadores essenciais é composto pelos profissionais da saúde, da segurança, da limpeza, da imprensa e do comércio, por exemplo, dos supermercados que continuaram atuando para garantir o fornecimento de produtos à população, e também da indústria, principalmente, a farmacêutica.

Nesta sexta-feira, 1º de maio, quando é comemorado o Dia do Trabalhador, o Portal Agora Laguna conversou com alguns destes profissionais, que relataram como tem sido a experiência de lidar com a pandemia do novo coronavírus. Alguns, falaram sobre medos e desafios. Outros trouxeram recados importantes à população.

 ‘Pretendo ir até o fim

Emocionada, a lagunense Camile Palma, de 29 anos, que atua há dez anos na área da saúde, contou um pouco de sua rotina para a reportagem e dos desafios que enfrenta durante essa pandemia – quando começou a trabalhar na enfermagem, ela acompanhou parte da luta contra o vírus H1N1.

“Não dá para brincar, é um vírus que se espalha rápido, o contágio é veloz e a mortalidade mostra para o mundo como ele é ágil”, comenta a profissional. A lagunense diz que ficou mais tranquila quando houve o decreto de isolamento e que, apesar de entender a necessidade, teme que a liberação econômica provoque o aglomero de pessoas e propague o vírus mais rapidamente.

Camile mora em Laguna, com o marido e o filho de quatro anos e deixa a cidade para trabalhar em um hospital em Tubarão. “Lido com a insegurança todo o dia [do que você pode trazer para casa]”, diz. Ela garante que mudou vários hábitos para evitar trazer o vírus para casa e adotou o isolamento social na própria família. “Estou sem ver meus afilhados há meses”, comenta.

A lagunense afirma que apesar do medo constante de lidar com a pandemia, de enfrentar um inimigo invisível, não deixará de cumprir com sua missão: “Estou na linha de frente, não posso e não vou abandonar minha profissão. Fiz juramento e pretendo continuar até o fim, mas dependo de um povo que tenha consciência, que não saia na rua sem necessidade”.

“Por favor, permaneçam em casa. Vamos manter o isolamento, nos esforçar mais um pouco. Está sendo difícil, é uma crise que o mundo inteiro está vivendo, sabe, vamos ficar mais um pouco dentro de casa, protegendo nossos entes queridos”, pede.

‘Receber o carinho é gratificante’

Com sete anos de empresa, Cristiano Menezes, 44 anos, talvez não imaginasse passar por uma situação dessas. Motorista de caminhão, o profissional faz parte da equipe da Louber Ambiental, que cuida do recolhimento de lixo em Laguna e que foi considerada como essencial pelo decreto estadual.

Arquivo pessoal

“Faça chuva ou faça sol, nossa equipe sempre está a postos, todos os dias, inclusive nos feriados, como hoje, para deixar toda a cidade limpa. Receber o carinho da população e o reconhecimento pelo nosso trabalho é gratificante”, comenta Cristiano.

Ele conversou rapidamente com a equipe do Portal enquanto cumpria a rota de trabalho neste feriado de 1º de maio, passando por toda a região da ilha e também por Cabeçuda, acompanhado dos colegas Alan, Daniel, Etelvino – mais conhecido como ‘Netinho’, e Misael.

‘Defendemos vidas, com as nossas vidas’

Para alguns, trabalhar no enfrentamento direto à pandemia é visto como uma missão, um desafio que não há muitas opções senão encarar. Foi assim com a enfermeira Gleice Cristine Martins Goularte. Ela é uma das profissionais destacadas pela Secretaria de Saúde municipal para integrar a equipe do centro de triagem montado pela prefeitura. Gleice brinca que a equipe é chamada de ‘Família Anti-Covid’.

Equipe do centro de triagem – Divulgação/PML

“Tem sido uma oportunidade incrível de crescimento profissional e pessoal, nossa rotina é intensa e procuramos fazer o nosso melhor. Adotamos como meta não ter o agravamento da doença no município”, descreve. “Buscamos monitorar nossos pacientes como se fossem nossos familiares, percebemos que o respeito, a compaixão, a tolerância e muitos outros valores tem se fortalecido durante esse processo”, detalha.

Falando pela equipe, Gleice diz que ela e os colegas também sentem medo. “Defendemos vidas com as nossas vidas, deixamos nossos filhos (as), esposos (as) e pais em casa. Alguns estão longe de nós, pois desejamos protegê-los. A saudade dói, a falta do abraço dói, mas sabemos que vamos vencer a pandemia e estamos motivados para isso”, destaca.

A enfermeira garante que todos no centro de triagem estão se cuidando e se dedicando a essa “missão tão importante”, como ela mesmo define. “Aproveito a oportunidade para reforçar as orientações de cuidado com a saúde tão divulgadas nesses dias e agradecer a Deus pela realidade vivida, onde temos todos os EPIs para trabalhar e a cura de quase todos os casos detectados, tendo em vista o esforço de todos os profissionais da área. Juntos vamos superar essa fase, e fique em casa”, pontua.

O centro de triagem de Laguna, que atende exclusivamente pacientes com suspeita de contágio pelo coronavírus ou que apresentem síndromes respiratórias, funciona de segunda à sexta-feira, das 7h30 às 11h30 e das 13h às 17h. O espaço foi instalado na Unidade Básica de Saúde do bairro Esperança.

RELEMBRE: LAGUNA APLAUDIU LINHA DE FRENTE
Em diversos países do mundo, as pessoas que ficavam em casa começaram a tirar uma hora do dia, geralmente à noite, para fazer um ‘aplausaço’, uma manifestação de carinho em alguns minutos para demonstrar apoio à linha de frente.
Na cidade juliana, não foi diferente. Os sinais de apoio aconteceram no Mar Grosso, Portinho, Perrixil, e Campo de Fora. Moradores aplaudiam e também acendiam e apagavam suas luzes, criando uma cena ainda mais única.

‘Vejo muita positividade’

Desde pequeno, Gabriel Scalon, 31, sempre quis ser médico. O sonho se tornou realidade e hoje, o profissional atua no Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos, onde também é diretor-técnico, e ainda no Hospital Nossa Senhora da Conceição e em uma outra casa hospitalar particular da cidade de Tubarão.

“Atuo na linha de frente em três hospitais. Em Laguna, além de trabalhar na emergência, trabalho na parte de internista. Para mim, não existe feriado já que a gente trabalha todos os dias, independente do que esteja acontecendo”, comenta Scalon.

O médico conversou com a equipe do Portal Agora Laguna em meio à um atendimento no hospital lagunense e usou o fato como exemplo: estava em casa, já tendo encerrado seu expediente, e teve de ser chamado para prestar auxílio à equipe da unidade.

“É um período conturbado, mas não deixa de ser gratificante. Vejo muita positividade em Santa Catarina, com a melhora dos pacientes, tratamento precoce e um número não tão grande quanto se imaginava. Ao menos até o momento, já que há a expectativa negativa que o número aumente com a abertura das atividades econômicas, mas dentro do esperado”, diz.

E neste dia 1º, Gabriel Scalon está em mais uma linha de frente atuando. “Não deixa de ser um Dia do Trabalhador gratificante. Estou exercendo minha profissão com muito amor e carinho”, pontua.

‘Ficamos mais cautelosos’

Rafael Schmitz, 38, foi técnico de enfermagem por dois anos no hospital de Laguna e hoje atua na equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Com quase 20 anos de profissão, conta que tanto para ele, quanto para os colegas, a pandemia tem sido uma novidade.

“Acredito que para mim e para todos os meus colegas de profissão está sendo tudo muito novo. Ficamos muito mais cautelosos, até porque o quê sabíamos sobre pandemia, nos foi instruído apenas em livros e nunca havíamos presenciado uma de tal proporção”, afirma.

Lagunense, Schmitz diz não ter medo. “Não temos medo, porque trabalhamos com vidas e já era nossa rotina. Temos cautela e profissionalismo para não errar no cuidado e acredito ser o objetivo nesse momento”, pontua.

O técnico de enfermagem frisa: “Vamos encarar de frente e com a proteção divina, fazer o máximo para que vidas sejam preservadas com o apoio e conscientização de todos que habitam neste planeta. Do rico ao pobre, do idoso à criança, vamos juntos”.

‘O risco é rotineiro’

“Sou mais um combatente, policial militar e utilizo desse espaço para dizer que são dias difíceis, mas vamos vencer. Fiz o juramento que aqui estaria, desempenhando minhas funções, mesmo com o risco da própria vida”. São com essas palavras que o cabo Willian Netto, lagunense, mas atuante no 5º Batalhão de Polícia Militar em Tubarão, iniciou seu depoimento à reportagem do Portal.

Importante para a sociedade, ser policial militar é trabalhar em uma profissão que convive com os riscos e sem saber como será o dia seguinte. “É assim que vivo cada dia, cada escala que me chama para enfrentar os perigos da vida, e isso inclui aqueles que ousam desrespeitar as regras da sociedade. O risco é rotineiro, não somente nesse período de pandemia, mas em qualquer dia do ano”.

O desafio para o policial é o mesmo que muitos outros militares encontram no país. “Sair de casa, deixando família, sem saber se voltarei para pelo menos escutar aquela palavra calorosa do meu filho gritando: ‘Paiiiii’, ao me avistar abrindo o portão. São riscos, é uma situação desafiadora”, conta.

Netto reconhece que atualmente a sociedade vive um tempo delicado e a cada patrulha que faz, se depara com pessoas em situação ainda mais difícil, vendo as possíveis dificuldades que terão para enfrentar o inimigo invisível.

“Sei que Deus é mais e está a cada dia nos protegendo. A todos os profissionais que hoje estão nessa batalha, como os médicos, enfermeiros e até você, cozinheiro do hospital, que muitos não citam, mas sabemos que está na linha de frente assim como outros profissionais, fica minha continência como um simples gesto de agradecimento, inclusive aos meus irmãos de farda que estão nas ruas. Que essa batalha nos una ainda mais como seres humanos. Estamos nas ruas por você, sempre com força e honra”, finaliza o PM.