Foto: Divulgação

Por muito tempo, o porto de Laguna foi localizado onde hoje está o Mercado Público e em suas docas, diversos navios eram ancorados ali e traziam passageiros e encomendas para a cidade, à época um importante polo econômico do sul de Santa Catarina. Parte da lagoa foi aterrada para receber a edificação nova na metade do século XX, substituindo o prédio que pegou fogo.

Várias empresas eram atuantes no ramo da navegação. A Carl Hoepcke era uma delas. Fundada em São Francisco do Sul, tinha aqui uma de suas principais filiais com várias embarcações a seu dispor. Uma Companhia Lagunense de Navegação chegou a ser fundada por comerciantes locais.

Parte desse passado glorioso veio à tona, ou melhor, voltou à superfície, em uma tarde de domingo, no dia 15 de março. Mergulhadores com apoio de um guincho resgataram uma âncora de navio com pelo menos dois metros de altura.

De acordo com o secretário de Turismo e Lazer, Evandro Flora, a prefeitura foi procurada cerca de dez dias antes da remoção pelo dono de uma empresa de mergulho, que comunicou da existência da âncora no fundo da lagoa e tinha interesse em fazer a retirada. Uma outra âncora também estaria na água, assim como duas proas de embarcação, de madeira e ferro.

Vestígios como esse não são incomuns

Apesar de chamar a atenção pelo tamanho, para o arqueólogo Alexandro Demanthè, especialista em Arqueologia Subaquática, o achado não é incomum considerando que ali aportavam navios.

“Nesses locais, chamados de sítios depositários, locais onde aportavam embarcações, mais comum que uma âncora é encontrarmos elementos do cotidiano dos ocupantes das embarcações, como garrafas, pratos quebrados etc”, comenta o especialista.

Segundo Demanthè, as âncoras pelo valor econômico não eram dispensadas. “Acidentes de trabalho ou desgaste das âncoras podem ser um dos motivos para o descarte”, aponta. Até meados do século XX, havia um depósito de carvão e diversas embarcações atracavam em Laguna, que era um importante centro comercial do Sul catarinense.

Cinco anos atrás, durante obras de revitalização do Centro Histórico para implantação de sistema de saneamento, outros achados chamaram a atenção. Os trabalhos de escavação, por estarem em um sítio arqueológico, foram acompanhados por arqueólogos e especialistas de empresa particular contratada para esse fim.

Uma galeria subterrânea que conectava a Fonte da Carioca a um chafariz localizado em frente ao primeiro mercado foi redescoberta. Quando foi encontrada, ainda transportava água cristalina. Próximo das docas, os operários recuperaram uma âncora com corrente, garrafas de vinho, pedaços de cerâmicas, xícaras e pires.

Entre um desembarque e outro, era comum que os passageiros se desfizessem de objetos quebrados e também das garrafas de vinho vazias. O gesto também era repetido pela população local que utilizava a lagoa para descarte. Isso caracteriza o local como um ‘sítio depositário’.

Até anos 40, depósito de carvão era visível no Centro Histórico – na foto, é possível ver o antigo Mercado e a Igreja do Rosário (no topo da imagem). Foto: Acervo As Mil e Uma Histórias de Laguna

Retirada da lagoa pode ter sido irregular

Demanthé pontuou à época da retirada que o procedimento poderia ter sido irregular, já que a retirada exige um arqueólogo na equipe devidamente reconhecido pelo Iphan, além de requerer autorizações do instituto e da Marinha do Brasil.

Procurado pela reportagem do Portal, o Escritório Técnico do Iphan (Etec-Iphan) em Laguna informou que não tinha conhecimento da retirada da âncora e confirmou que a ação teria sido irregular pela ausência de projeto específico e acompanhamento especializado.

Uma nota divulgada pelo Iphan trouxe mais luz à retirada da âncora, inicialmente armazenada pela empresa que retirou o objeto da lagoa. “A Marinha e o Iphan esclarecem que existem leis, normativas e procedimentos sobre a pesquisa, exploração, remoção e demolição de coisas ou bens afundados, submersos, encalhados e perdidos em águas sob jurisdição nacional. Compete ao Ministério da Marinha a coordenação, o controle e a fiscalização das operações e atividades de pesquisa, exploração e remoção”, disse o texto.

A âncora está em posse da Marinha e até o momento não houve definição sobre um possível destino. “Consultamos o setor de arqueologia subaquática do Iphan em Brasília para ter orientação do que fazer com ela e aguardamos retorno”, explica a chefe do Etec, Ana Paula Cittadin.

Reunião no Iphan sobre a âncora em 17 de março – Foto: Divulgação/Iphan