Foto: Elvis Palma/Agora Laguna/Arquivo

A demolição do Centro Social Urbano (CSU), no bairro Progresso, feita na quarta-feira, 8, é justificada por um laudo técnico feito pelo setor de Engenharia da Amurel, elaborado em 2018, a pedido da prefeitura de Laguna. Essa afirmação foi feita pelo chefe do Executivo em contato com a reportagem de Agora Laguna, que teve acesso com exclusividade ao documento feito pela Amurel, condenando a edificação (veja mais adiante).

Candemil diz ter interesse na área desde 2017, quando assumiu a gestão municipal. Na visão do prefeito, o local poderia abrigar os projetos sociais da Acustra e também ampliar o espaço do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), que já é usuário de parte do terreno. O plano de construir uma quadra poliesportiva pelo Sesc também teria chances de ser resgatado.

“O CSU é uma edificação que pertence ao governo do Estado, assim como toda a área do entorno. Quando assumimos em 2017 tentamos transferir para a prefeitura municipal aquelas propriedades e não tivemos êxito”, afirma.

Ainda de acordo com o prefeito, a administração pública de Laguna sempre teve interesse na recuperação da edificação, que estava abandonada desde 2015, aproximadamente. Isso motivou um pedido em 2018 para o setor de Engenharia da Amurel, para que fosse elaborado um laudo sobre as condições estruturais reais do prédio.

“O laudo feito pela Amurel condena o prédio sob o risco de desabar e provocar algum acidente, inclusive com pessoas que ali se abrigavam [moradores em situação de rua”, explica Candemil. A partir do documento, a prefeitura enviou um ofício ao governo catarinense, que autorizou sua demolição, inclusive com manifestação favorável da Procuradoria Jurídica do Estado.

Ofício de março de 2019 que autoriza a demolição do CSU – Foto: Exclusivo/Agora Laguna

O governo deu aval para que o prédio fosse posto abaixo em março de 2019 e solicitou ao Município que executasse o serviço por não ter, no momento, condições operacionais de fazer por contra própria. A prefeitura fez a demolição na tarde do último dia 8, de maneira que surpreendeu a população – os custeios do serviço ficaram por conta da própria administração municipal.

Candemil frisa que a demolição aconteceu não só para evitar um acidente maior, com um possível desabamento, como também para preservar o prédio do Creas, que segue em obras. Por algumas vezes, operários que atuam na construção da edificação vizinha foram atacados com pedras e objetivos atirados a partir do CSU.

A prefeitura deve encaminhar novo ofício ao governo requerendo a cessão de uso de todo o terreno, para que possa ser administrado. A área já foi repassada ao Município em anos anteriores, mas acabou sendo devolvida ao Estado. Segundo Candemil, a partir dessa cessão é que a administração municipal irá buscar formas financeiras de requalificar o terreno.

Foto: André Luiz/Agora Laguna

O que diz o laudo da Amurel

De acordo com o documento, de nove páginas, assinado pelo engenheiro Jean Cardoso de Souza, a vistoria feita no CSU, em agosto de 2018, foi solicitada pela prefeitura municipal, para verificar a possibilidade de o local abrigar um Centro-Dia, projeto do governo catarinense que cria espaços para socialização de idosos.

Cardoso registra no laudo que a inspeção tinha objetivo de verificar a segurança e a habitabilidade da edificação, erguida há cerca de 40 anos. Pelo documento, o CSU apresentava:

  • Estrutura de concreto armado com sinais de emendas;
  • Estrutura de madeira danificada na maior parte da edificação e com sinais de deterioração por cupins;
  • Instalações hidrossanitárias com conservação inadequada e sistema hidráulico condenado para uso;
  • Trincas no piso superior e paredes que encontram pilares;
  • Vidros, pisos, azulejos e esquadrias quebradas ou sem condição de uso;
  • Instalações elétricas deficientes
  • De forma resumida as instalações elétricas ainda existente está danificada, não atendendo aos requisitos mínimos de segurança;

Diante desses pontos, o engenheiro disse que não haveria possibilidade de aproveitar o que restava da edificação. “É possível caracterizarmos que a edificação não possui condições de habitabilidade, assim classifico as anomalias apresentadas quanto ao seu grau de risco, como: grau de risco crítico – impacto irrecuperável. Assim não recomendo o aproveitamento da estrutura existente”, disse no documento.

Laudo elaborado por engenheiro da Amurel condena CSU ao não aproveitamento da estrutura edificada – Foto: Exclusivo/Agora Laguna

Demolição gera comoção

O trabalho de demolição do CSU causou comoção nas redes sociais, demonstrada por pessoas que tiveram suas trajetórias ligadas ou marcadas pelo espaço.

O projeto dos centros sociais foi desenvolvido na década de 1980 pelo Governo de Santa Catarina e aplicado em cidades de médio e grande porte, incluindo Laguna, Florianópolis, Tubarão e Criciúma. Em alguns destes municípios, havia vários CSUs.

A iniciativa era mantida por conselhos comunitários e tinha como foco o desenvolvimento de comunidades consideradas mais carentes. O Estado disponibilizava recursos para a manutenção do programa e pagamento de funcionários, para auxiliar no funcionamento do centro.

“Tinha um programa do governo que administramos aqui, que era o ‘Olha o Peixe’ [desenvolvido em 1983, na administração de Jorge Bornhausen], que vendia quilos de farinha de mandioca, de mandioca, feijão, arroz e peixe – quase sempre era sardinha – ao preço de R$ 1 o quilo”, lembra o radialista João Batista Cruz, que foi presidente por duas oportunidades do Conselho Comunitário do Progresso.

No CSU, a população tinha a disposição um salão de eventos, espaço de recreação, campo para prática de esportes, e ainda, lugar para alfabetização de crianças. “O CSU era durante muito tempo referência em assistência social da cidade”, diz o professor de História, Rodrigo Bento, que torce para que o projeto a ser implantado no local seja nesse caminho e que vá ao encontro dos anseios comunitários.

Nas últimas administrações municipais, o espaço também abrigou repartições públicas. A Guarda Municipal chegou a fazer dali sua sede e entre 2013 e 2015, na gestão de Everaldo dos Santos (PDT), a Fundação Irmã Vera abrigou seus projetos sociais no espaço.

Com a saída dos órgãos municipais e a falta de manutenção, o prédio se degradou e ficou sendo lar de pessoas em situação de vulnerabilidade. Por muitas vezes, o Corpo de Bombeiros Militar foi acionado para extinguir focos de incêndio, que contribuíram para a decadência da estrutura. Em 2019, um homem foi encontrado morto no prédio.

CSU antes da demolição, em registro de 2016. Foto: Elvis Palma/Agora Laguna/Arquivo